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Trump sugere ação em Cuba após Venezuela e Irã

© REUTERS/Elizabeth Frantz/Proibida reprodução

O então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou em 28 de setembro de 2020 que “Cuba é a próxima”, proferindo as palavras durante um discurso em um fórum de investimentos em Miami. A afirmação, carregada de ambiguidade e ameaça, veio no contexto de um elogio aos supostos êxitos das ações militares e de pressão dos EUA na Venezuela e no Irã. Embora o líder norte-americano não tenha detalhado os planos para a nação insular, a sua reiterada crença de que o governo de Havana, imerso em uma grave crise econômica, estaria à beira do colapso, adiciona uma camada de urgência e incerteza à política dos EUA para Cuba. A retórica acende alertas sobre o futuro das tensas relações bilaterais e o potencial de escalada de medidas punitivas.

Escalada da retórica e implicações

A mensagem de “Cuba é a próxima”

A declaração de Donald Trump em Miami, “Eu construí esse grande exército. Eu disse ‘Você nunca terá que usá-lo.’ Mas, às vezes, é preciso usá-lo. E, a propósito, Cuba é a próxima”, reverberou como um sinal de alerta sobre as intenções de sua administração em relação à ilha caribenha. A frase, proferida em um evento com investidores, tinha o claro objetivo de projetar força e determinação. Embora o presidente não tenha especificado a natureza da “ação” a ser tomada, a menção a um “grande exército” e a necessidade de “usá-lo” abriu margem para interpretações que variavam desde a intensificação do embargo econômico até a possibilidade de intervenção militar, embora esta última fosse uma escalada extrema e sem precedentes recentes.

Essa retórica agressiva contrastava com a informação de que seu governo havia iniciado negociações com lideranças cubanas nas semanas anteriores. A simultaneidade de diálogos diplomáticos e ameaças públicas criava um cenário de incerteza, onde as intenções exatas de Washington permaneciam obscuras. A fala de Trump alimentava a tese de que sua administração buscava capitalizar a fragilidade econômica de Cuba para forçar uma mudança de regime, utilizando tanto a pressão externa quanto a instabilidade interna como alavancas. A ambiguidade estratégica servia, em parte, para manter Havana em estado de alerta e para demonstrar firmeza a uma base eleitoral conservadora nos EUA, particularmente na Flórida, estado crucial para as eleições presidenciais.

O contexto geopolítico e a crise cubana

A situação econômica em Cuba

Cuba enfrenta uma das suas mais graves crises econômicas da história recente, um cenário que Donald Trump explorava em sua retórica. A nação insular sofre com a escassez crônica de produtos básicos, uma inflação galopante e a falta de divisas estrangeiras, fatores que impactam diretamente a vida de milhões de cubanos. O setor de turismo, vital para a economia, foi severamente atingido pelas restrições de viagens impostas pelos EUA e, posteriormente, pela pandemia de COVID-19, agravando ainda mais a situação.

O embargo econômico dos Estados Unidos, que perdura há décadas, é uma das principais causas apontadas para a precariedade econômica de Cuba. Sob a administração Trump, o embargo foi significativamente endurecido, com medidas que visavam cortar as fontes de receita da ilha e restringir ainda mais o acesso a bens e serviços. Uma das ações mais impactantes foi a imposição de sanções que impediram a Venezuela de fornecer petróleo a Cuba em condições preferenciais, mergulhando a ilha em uma severa crise energética. Nos meses que antecederam a declaração de Trump, o país sofreu uma série de apagões generalizados, que deixaram mais de 10 milhões de pessoas sem eletricidade por longos períodos, afetando residências, hospitais, escolas e toda a infraestrutura vital, paralisando atividades essenciais e gerando grande descontentamento social. A ajuda humanitária internacional, embora presente, como no caso de comboios entregando toneladas de suprimentos, era insuficiente para mitigar a dimensão da crise.

Ações em Venezuela e Irã como precedentes

Os “sucessos” a que Trump se referia ao mencionar a Venezuela e o Irã estavam ligados à política de “pressão máxima” adotada por sua administração contra esses países. No caso da Venezuela, os EUA impuseram uma série de sanções econômicas e financeiras severas, visando derrubar o governo de Nicolás Maduro e apoiar a oposição. Embora o governo Maduro tenha se mantido no poder, Trump interpretava as sanções e o isolamento diplomático como um sucesso na desestabilização e enfraquecimento do regime. As medidas incluíram restrições ao setor petrolífero venezuelano, impactando diretamente o principal motor da economia do país.

Em relação ao Irã, a administração Trump retirou os EUA do acordo nuclear e reimpôs sanções drásticas, buscando frear o programa nuclear iraniano e sua influência regional. A pressão econômica e a ameaça constante de retaliação militar, exemplificada pela suspensão de ataques a usinas de energia iranianas em momentos de escalada, eram vistas por Trump como ferramentas eficazes de coerção. A menção desses dois países no mesmo contexto de Cuba sugeria a intenção de aplicar um playbook semelhante: isolamento econômico, desestabilização e, se necessário, a ameaça de força para alcançar objetivos políticos. A estratégia era clara: usar o poder econômico e militar dos EUA para forçar mudanças em regimes considerados adversários, explorando suas vulnerabilidades internas.

Perspectivas e o futuro das relações

O impacto do embargo e as visões internacionais

O embargo econômico dos EUA contra Cuba, em vigor desde os anos 1960, é um dos mais longos e abrangentes da história moderna. Sob a administração Trump, houve um endurecimento significativo das restrições, revertendo parte da abertura diplomática e comercial iniciada pelo governo Obama. Essas medidas incluíram a limitação de remessas, a proibição de viagens de cruzeiro e a aplicação de sanções a empresas que operam com a ilha, exacerbando a crise humanitária e econômica. A comunidade internacional, em grande parte, condena o embargo, considerando-o uma violação da soberania cubana e um entrave ao desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, sob diferentes governos, reiteradamente condenou o embargo econômico contra Cuba, posicionando-se a favor de uma abordagem baseada no diálogo e na cooperação. As resoluções anuais da Assembleia Geral da ONU contra o embargo refletem essa visão global, com uma esmagadora maioria de países votando a favor do seu fim. A pressão internacional, no entanto, não foi suficiente para alterar a política de linha-dura de Washington, especialmente sob a ótica de Trump.

Negociações e a sombra da ação cinética

A menção de que o governo Trump iniciou “negociações com lideranças de Cuba nas últimas semanas”, paralelamente às ameaças públicas, adiciona uma complexidade considerável à situação. Essas negociações poderiam ter sido uma tentativa de abrir canais para uma transição pacífica ou para estabelecer condições para uma eventual flexibilização das sanções. No entanto, a ambiguidade de Trump, ao sugerir a possibilidade de “ação cinética” – um termo militar que implica o uso da força –, pairava como uma sombra sobre qualquer diálogo. Essa dualidade entre diplomacia e coerção fazia parte da tática da administração Trump, que buscava manter todos os caminhos abertos e todas as opções na mesa. A combinação de pressão máxima e uma porta estreita para o diálogo visava maximizar a alavancagem dos EUA, forçando Cuba a fazer concessões substanciais. A política para Cuba era também profundamente influenciada por considerações domésticas, como o apoio de eleitores cubano-americanos na Flórida, que historicamente favorecem uma postura mais dura contra o regime de Havana.

Consequências em aberto

A declaração de Donald Trump de que “Cuba é a próxima” sinalizou um período de elevada tensão e incerteza para a nação caribenha, consolidando uma política de máxima pressão que visava capitalizar a grave crise econômica e social da ilha. As ações contra Venezuela e Irã serviram de modelo para uma abordagem que combinava sanções econômicas, isolamento diplomático e uma retórica ameaçadora. Apesar das negociações de bastidores, a ambiguidade em torno de uma possível “ação cinética” deixou Cuba em alerta máximo, com a população sofrendo diretamente as consequências do endurecimento do embargo e da crise energética. O futuro das relações entre os Estados Unidos e Cuba permaneceu incerto, oscilando entre a possibilidade de um diálogo que levasse a uma eventual mudança de regime e o risco de uma escalada de medidas punitivas, com amplas repercussões regionais e internacionais.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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