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Quarto dia do Rock in Rio: Elton John, Gilberto Gil e os contrastes da noite

G1

O quarto dia do Rock in Rio 2026, realizado nesta segunda-feira (7), desenhou um panorama de intensos contrastes, consagrando o retorno de lendas e revelando desafios para novas vozes. A jornada musical foi marcada por baladas inesquecíveis, homenagens a ícones da música brasileira e americana, e encontros intergeracionais que transitaram entre o smooth jazz, o pop e a bossa nova. Enquanto Elton John reafirmava seu status imbatível aos 79 anos, e Gilberto Gil, aos 84, emocionava o público em um show que ele mesmo sugeriu ser sua despedida do festival, outros artistas, como Luísa Sonza, enfrentaram uma recepção mais morna, evidenciando a dinâmica imprevisível de um evento dessa magnitude. A diversidade sonora e cultural prevaleceu, com o Rock in Rio mais uma vez provando ser um palco para a celebração de diferentes vertentes da música global.

O legado dos ícones: Elton John e Gilberto Gil

O retorno triunfal de Elton John

A aguardada volta de Elton John ao Brasil, após 11 anos, foi um dos momentos mais celebrados do quarto dia do Rock in Rio. O lendário cantor e pianista inglês, em sua terceira participação no festival e oitava vinda ao país, fez história como o headliner mais velho a subir ao palco principal. Aos 79 anos, Elton John provou que sua aposentadoria, formalmente anunciada com o fim da turnê de despedida em 2023, pode, sim, esperar para shows pontuais.

Vestindo um marcante terno de paletó amarelo fluorescente e camisa azul marinho, o artista entregou um espetáculo de 24 músicas em 2 horas e 15 minutos, recheado de seus hinos românticos e baladas imbatíveis. Suas interações com o público foram econômicas, mas pontuais e repletas de significado. Antes de “Candle in the Wind”, explicou a homenagem a Marilyn Monroe, que completaria seu centenário no ano em questão. A aparição de Dua Lipa no telão durante “Cold Heart” foi outro ponto alto, com o público reagindo com entusiasmo. Um momento de especial conexão com o Brasil ocorreu com “Skyline Pigeon”, que ele descreveu como “a música mais rápida que escrevi com Bernie. E ela só é popular no Brasil”, lembrando sua inclusão na trilha sonora da novela “Carinhoso” (1973). A performance de Elton John foi um lembrete do poder atemporal da música e da genialidade de um artista que continua a encantar gerações.

A despedida emotiva de Gilberto Gil

O show de Gilberto Gil no quarto dia do Rock in Rio foi carregado de simbolismo e emoção. Aos 84 anos, o mestre da MPB subiu ao palco pela quinta vez no festival – com apresentações anteriores em 1985 (duas vezes), 2001 e 2022 – e sugeriu que esta poderia ser sua última aparição no evento. Embora sua voz estivesse mais fraca e seus movimentos no palco mais contidos, a maestria de Gil em dominar o espaço e emocionar o público permaneceu inabalável.

Em pouco mais de uma hora de show, Gilberto Gil revisitou 16 faixas que percorreram diferentes momentos de sua vasta carreira, entoando clássicos como “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana”, “Realce”, “Pela Internet” e “Palco”. A apresentação foi vendida como uma despedida, mas o próprio artista esclareceu que o adeus era apenas para as grandes turnês. Agora, parece que ele está se despedindo de mais um palco grandioso, o que intensificou o sentimento de gratidão e nostalgia na plateia. A principal preocupação do artista, ao que parece, é garantir que seu repertório – repleto de histórias de amor, canções de ninar, reflexões existenciais, protestos e mensagens de esperança – continue a ressoar nas futuras gerações, mesmo quando ele decidir parar de vez com os shows.

Pontes musicais e celebrações de gênero

Péricles e a homenagem à Motown

Péricles, conhecido como o “Rei da Voz”, surpreendeu o público do Palco Sunset com uma performance exclusiva e audaciosa, que se afastou de seu usual repertório de samba e pagode. O artista dedicou todo o seu show a uma homenagem à Motown Records, lendária gravadora que foi fundamental na integração racial da música popular norte-americana e na formação da black music. Para a apresentação, criada exclusivamente para o festival a sugestão do vice-presidente artístico da Rock World, Péricles abraçou hits do soul e do R&B, utilizando o português apenas para interagir com a plateia.

Aqueles que foram ao Sunset abertos a uma nova experiência e cientes do talento vocal do artista, ficaram encantados. Péricles não decepcionou, mostrando sua versatilidade e a potência de sua voz em um gênero que dominou com maestria. A performance de “Stand by Me”, clássico de Ben E. King que ele frequentemente insere em seus shows, ganhou destaque, mas foi a imersão completa na Motown que ressaltou a capacidade do cantor de transcender gêneros e emocionar com sua interpretação.

A espiritualidade musical de Jon Batiste

Jon Batiste transformou sua apresentação no Rock in Rio em uma verdadeira “prática espiritual”, como ele mesmo descreveu, unindo a cultura musical americana à brasileira. O espetáculo começou com Batiste cantando acapella, evocando um louvor, para em seguida esquentar o ambiente com a presença de percussionistas cariocas que transformaram a performance em um carnaval contagiante.

A mensagem de união e liberdade foi o cerne do show, que passeou do samba ao blues, do gospel americano ao ritmo do carnaval, sempre com a premissa de que a música faz bem para a alma. “Isso não é um show, é uma prática espiritual. E de onde eu venho, quando a gente toca esse tipo de música, as pessoas não ficam paradas. Preciso sentir sua liberdade”, disse Batiste antes de cantar “Freedom”. Em seguida, emendou um “Mas Que Nada”, com a brasileira Nêgah Santos assumindo os vocais – curiosamente, a segunda vez que o clássico de Jorge Ben apareceu no festival. Com uma camiseta azul do Brasil e uma musicalidade ímpar, Jon Batiste entregou um dos shows mais autênticos e espirituosos desta edição, provando que talento e paixão superam qualquer firula.

Roupa Nova e Guilherme Arantes: uma viagem no tempo

Trinta e cinco anos após sua única apresentação anterior, o Roupa Nova retornou ao Rock in Rio, desta vez no Palco Sunset, que costuma abrigar projetos especiais e encontros inéditos. Para celebrar este retorno, o grupo convidou Guilherme Arantes, um ferrenho defensor da volta do Roupa Nova ao festival, que fez sua estreia no evento aos 73 anos. A parceria prometia uma viagem pela memória afetiva da TV brasileira e pelas trilhas sonoras de novelas, e não decepcionou.

A sintonia entre Guilherme e os membros do Roupa Nova – Kiko, Nando e Serginho – era evidente, fruto de colaborações anteriores em músicas como “O Melhor Vai Começar” (1982) e “Raça de Heróis” (1989), além da participação do grupo em arranjos e gravações de várias faixas solo de Arantes. A apresentação foi um mergulho em sucessos que marcaram gerações, proporcionando um reencontro emocionante entre os artistas e o público. O show foi tão bem-sucedido que, ao final, a impressão que ficou foi a de que o Roupa Nova deveria agora inverter o papel e defender o retorno de Guilherme Arantes ao festival em um show solo.

Vanessa da Mata: duas décadas de sucesso no Sunset

Vanessa da Mata transformou sua apresentação no Palco Sunset em uma celebração vibrante de seus 20 anos de carreira. Pontualmente às 15h, a cantora abriu o palco com seu hit “Não Me Deixe Só”, seguindo com “Segue o Som” e “Baú”. Seu repertório, que costurou sucessos que marcaram sua trajetória, músicas do álbum mais recente e versões de clássicos da música brasileira, proporcionou uma visão completa de sua obra.

Momentos de grande empolgação aconteceram com os primeiros versos de “Amado”, que fez a plateia vibrar. Embora “Vem Doce” e “Vermelho” tenham causado uma pequena dispersão, Vanessa rapidamente recuperou a energia com “Boa Sorte / Good Luck”. Para “Ainda Bem”, a cantora convidou Rubel ao palco, e juntos ainda fizeram um cover de “Medo Bobo”, de Maiara e Maraísa. Para encerrar o show, Vanessa trouxe um de seus maiores hits, “Ai, Ai, Ai…”, diante de uma plateia cheia. A performance de Vanessa da Mata deixou a impressão de um show que soube celebrar uma trajetória de sucesso sem se apoiar apenas na nostalgia, mostrando a vitalidade e relevância de sua música.

Novas vozes e a reinvenção da bossa nova

Laufey: o fenômeno global do jazz e bossa nova

A islandesa Laufey, aos 27 anos, é um fenômeno musical que vem conquistando o mundo com sua mistura singular de smooth jazz, pop e bossa nova. Em sua segunda visita ao Brasil, no Rock in Rio, ela atraiu uma legião de fãs jovens, muitos acompanhados por seus pais, que se encantaram com seu estilo delicado e romântico. O jazz de Laufey, diferentemente do estilo mais groovado, é suave, lento e doce, uma característica marcante de seu disco e turnê, “A Matter of Time”.

Apesar da estrutura “perfeitinha” do show, com uma banda coesa e músicas bem executadas, os momentos em que Laufey se permitiu ser menos contida foram os mais memoráveis. Em uma homenagem à música brasileira, ela arriscou cantar “Perdido de Amor”, de Luiz Bonfá, em português. Embora a pronúncia não fosse das melhores, o charme e a fofura do momento conquistaram o público. O show, embora encantador, foi descrito como “inofensivo”, sugerindo que, por vezes, um pouco mais de espontaneidade poderia elevar ainda mais a experiência.

Luísa Sonza e Roberto Menescal: um encontro de gerações

A apresentação de Luísa Sonza no Palco Mundo, que contou com a participação do lendário Roberto Menescal, teve um sabor agridoce no quarto dia do Rock in Rio. Apesar de ter mostrado sua força em edições anteriores do festival, nesta segunda-feira a cantora enfrentou uma pouca presença de público, tornando fácil o acesso à grade, onde poucos fãs de Elton John aguardavam o headliner.

Outro desafio foi o som, que estava embolado, por vezes escondendo a voz da cantora, especialmente em canções com batidas pesadas como “Motinha 2.0”. Apesar de sua evolução vocal, a dificuldade em decifrar as letras sem conhecê-las previamente foi um problema. O repertório de Sonza mesclou seu pop dançante com um bloco dedicado à bossa nova. “Esse show é o mais importante da minha carreira”, comentou a artista ao convidar a “lenda” Menescal ao palco. O dueto, de 18 minutos de bossa nova e 42 de pop dançante com 11 dançarinos, começou com “Chico”, na versão que substitui o nome do ex-namorado. Em seguida, interpretaram “Um Pouco de Mim”, composta pelos dois, e “Você”, escrita por Menescal e Ronaldo Bôscoli. O set de bossa nova foi encerrado com a melhor performance da cantora, em “Samba de Verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

Conclusão

O quarto dia do Rock in Rio 2026 foi uma tapeçaria rica em contrastes e celebrações, reforçando a capacidade do festival de ser um espelho da diversidade musical. De lendas como Elton John e Gilberto Gil, que entregaram performances memoráveis e carregadas de simbolismo, a artistas que buscaram inovar e fazer pontes entre gêneros e gerações, como Péricles, Jon Batiste e Roupa Nova, o público foi presenteado com uma experiência vasta. Os encontros da nova geração com a bossa nova, exemplificados por Laufey e o dueto de Luísa Sonza com Roberto Menescal, mostraram a constante reinvenção da música brasileira. Apesar dos desafios pontuais, a noite consolidou o Rock in Rio como um palco essencial para a música, onde o legado se encontra com o futuro e a arte se manifesta em múltiplas formas.

Acompanhe as próximas edições do Rock in Rio para mais momentos inesquecíveis da música global e do cenário cultural brasileiro.

Fonte: https://g1.globo.com

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