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Mulheres em São Paulo exigem fim da violência e da escala 6×1

© Elaine Patrícia Cruz/ABr

Apesar da intensa chuva que caía na tarde deste domingo, milhares de mulheres tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo, para um ato marcante do Dia Internacional da Mulher. Em um vibrante protesto que se estendeu da Avenida Paulista até a Praça Roosevelt, as manifestantes ergueram faixas e entoaram cânticos em defesa de pautas cruciais para a vida feminina. O movimento, replicado em diversas cidades brasileiras, focou principalmente na urgente necessidade de combater a violência contra as mulheres e na reivindicação pelo fim da desgastante escala de trabalho 6×1. O clamor por mudanças estruturais e políticas públicas efetivas ecoou, transformando o temporal em um símbolo da resiliência e da determinação feminina na busca por direitos e igualdade.

A luta contra a violência de gênero

Feminicídio e a busca por políticas efetivas

O combate ao feminicídio e à violência contra a mulher em todas as suas formas foi um dos pilares centrais do protesto. Alice Ferreira, uma das fundadoras e coordenadoras do movimento Levante Mulheres Vivas, enfatizou a insuficiência de meros pactos ou notas de apoio por parte das autoridades. “Queremos orçamento público e medidas efetivas. E isso não vimos avançar em nenhuma das esferas do executivo, do judiciário e do legislativo”, afirmou Ferreira, destacando a frustração com a falta de progresso real na implementação de políticas de proteção.

Para simbolizar a dimensão trágica da violência de gênero, uma intervenção impactante foi realizada na Avenida Paulista: centenas de sapatos femininos foram dispostos ao longo da via, representando as vítimas de feminicídio no país. Essa instalação visual serviu como um poderoso lembrete das vidas perdidas e da urgência em frear essa epidemia. Dados apresentados durante o ato revelaram que, somente no estado de São Paulo, o ano de 2025 registrou a morte de 270 mulheres, um aumento alarmante de 96,4% em comparação com 2021. Este número representa um recorde histórico desde o início da série de registros em 2018, sublinhando a gravidade crescente do problema.

Criminalização da misoginia e o impacto digital

A demanda pela criminalização da misoginia também ganhou destaque. Alice Ferreira mencionou a importância de um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que visa tipificar a conduta de ódio contra as mulheres como crime. Segundo a ativista, essa medida é fundamental em um cenário onde “o discurso feminista é boicotado pelas big techs, enquanto o discurso red pill é impulsionado”. A criminalização seria um primeiro passo para reverter essa lógica e coibir a propagação de ideologias misóginas que encontram eco em plataformas digitais.

A questão da misoginia foi ampliada para incluir a proteção de crianças e adolescentes. Outra instalação independente, composta por bonecas, foi montada em frente ao Fórum Pedro Lessa, alertando para o sofrimento infantil decorrente da misoginia. Ferreira fez referência a um “escândalo da quase legalização da pedofilia no judiciário”, aludindo a um caso específico envolvendo um desembargador que absolveu um homem acusado de estupro contra uma menina de 12 anos em Minas Gerais, reforçando a necessidade de uma justiça mais protetiva e menos complacente com crimes de gênero.

A jornada de trabalho e a dupla carga feminina

O clamor pelo fim da escala 6×1

Além da violência, outra pauta de grande relevância abordada pelas manifestantes foi o fim da escala de trabalho 6×1. Luana Bife, representante da direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de São Paulo, destacou a importância dessa reivindicação para as mulheres trabalhadoras. “O mote de São Paulo é pela vida das mulheres, pelo fim da escala 6 por 1 e em defesa da soberania e autodeterminação dos povos”, resumiu Bife, evidenciando a intersecção entre as lutas feministas e as demandas trabalhistas.

A ativista argumentou que a abolição da escala 6×1 e a consequente redução da jornada de trabalho são cruciais, especialmente considerando a dupla jornada que muitas mulheres enfrentam. Elas não só contribuem para a renda familiar, mas são as principais responsáveis pelo cuidado com a casa e os filhos. “A mulher tem uma escala 7 por 0”, observou Bife, metaforicamente, para ilustrar a ausência de descanso efetivo. Para a mulher trabalhadora, o fim da escala 6×1 não se traduz apenas em um período de descanso físico e autocuidado, mas também na liberdade de “decidir como quer estar no mundo”, ou seja, ter mais autonomia sobre seu tempo e suas escolhas.

Direitos trabalhistas e autonomia

A defesa de direitos trabalhistas e a busca por autonomia se conectam intrinsecamente com a visão de que problemas como a violência e a falta de garantias devem ser enfrentados com políticas públicas robustas. Luana Bife enfatizou a necessidade de uma “pauta permanente de defesa da vida das mulheres” que não esteja sujeita às flutuações de governos. “A gente tem que ter firmes as políticas públicas e sociais que se destinam ao combate das violências contra as mulheres e as meninas”, reiterou, defendendo a continuidade e o fortalecimento de iniciativas que garantam a proteção e o empoderamento feminino.

O ato também ecoou protestos contra a violência política e o extremismo que busca controlar os corpos e as vozes femininas, reforçando a ideia de que a luta por direitos é multifacetada. Batizado de “Em Defesa da Vida das Mulheres”, o evento em São Paulo reuniu um amplo espectro de movimentos sociais e sindicais, demonstrando a força da articulação feminina e popular. Entre os participantes estavam a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), entre outros. A presença de tantas entidades sublinhou a transversalidade das pautas e a união em torno de um objetivo comum: uma sociedade mais justa e igualitária para todas as mulheres.

Conclusão

O ato na Avenida Paulista, apesar das adversidades climáticas, reafirmou o poder e a resiliência das mulheres brasileiras na luta por direitos fundamentais. A união de diferentes movimentos sociais e sindicais em torno de pautas como o fim da violência de gênero e a melhoria das condições de trabalho demonstra a complexidade e a urgência das transformações necessárias. As vozes que ecoaram pela capital paulista neste Dia Internacional da Mulher não apenas denunciaram injustiças, mas também projetaram a visão de um futuro onde a autonomia, a segurança e o respeito às mulheres sejam direitos inalienáveis e efetivamente garantidos por políticas públicas e uma sociedade mais consciente. A caminhada de São Paulo é um lembrete contundente de que a luta por uma vida digna e livre de opressão é contínua e exige o engajamento de todos.

Para acompanhar de perto o andamento das propostas legislativas e das políticas públicas que visam proteger e empoderar as mulheres, mantenha-se informado e participe ativamente dos debates sobre igualdade de gênero e direitos sociais.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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