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Morre no Rio o trombonista Zé da Velha, ás do choro e discípulo de Pixinguinha

G1

A música brasileira perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas. José Alberto Rodrigues Matos, mundialmente conhecido como trombonista Zé da Velha, faleceu na última sexta-feira do ano, aos 84 anos, na cidade do Rio de Janeiro. A causa da morte foi uma infecção bacteriana, que se somou a problemas de saúde preexistentes. Nascido em Aracaju, Sergipe, em 1º de junho de 1941, Zé da Velha deixou um legado imenso no choro, sendo reverenciado por sua técnica apurada e por ter sido um elo fundamental entre as gerações clássicas e contemporâneas do gênero. Sua partida marca uma perda significativa para a cultura musical do país.

O Legado de um Mestre do Choro

Zé da Velha, cujo nome artístico foi abreviado de “Zé da Velha Guarda” – uma referência aos seus anos tocando com o conjunto Velha Guarda na década de 1950, ao lado de ícones como Donga e o imortal Pixinguinha – consolidou-se como um dos maiores trombonistas da história do choro. Sua carreira, que se estendeu por cerca de 60 anos, foi marcada por colaborações de peso e um talento que o fez transcender a condição de instrumentista para se tornar um verdadeiro mestre. A habilidade de Zé da Velha permitiu-lhe tocar com lendas como Pixinguinha (1897 – 1973), Jacob do Bandolim (1918 – 1969) e Waldir Azevedo (1923 – 1980), absorvendo e perpetuando a essência do gênero.

Conexões com Gigantes

A convivência e as apresentações com esses pilares do choro não apenas moldaram a sonoridade de Zé da Velha, mas também o posicionaram como um guardião dessa tradição. Tocar com Pixinguinha, um dos maiores compositores e instrumentistas da música brasileira, foi uma experiência formativa que o ligou diretamente à gênese do choro. As interações com Jacob do Bandolim, mestre do bandolim e figura central na redescoberta e revitalização do choro, e com Waldir Azevedo, virtuose do cavaquinho conhecido por sua agilidade e técnica, enriqueceram ainda mais seu estilo. Essas experiências transformaram Zé da Velha em uma ponte viva entre a “velha guarda” e as novas gerações de músicos, garantindo a continuidade e a evolução do choro.

A Parceria com Silvério Pontes e a “Menor Big Band”

Em 1986, Zé da Velha iniciou uma das parcerias mais célebres de sua carreira, formando uma afinada dupla com o trompetista fluminense Silvério Pontes. A união dos dois instrumentistas resultou em um som tão completo e envolvente que eles foram carinhosamente apelidados de “a menor big band do mundo”. Esta alcunha, que inclusive batizou a biografia lançada em 2016 sobre a trajetória da dupla, ressaltava a capacidade deles de criar uma sonoridade rica e grandiosa, mesmo com apenas dois instrumentos, desafiando as convenções dos grandes arranjos orquestrais. A sinergia entre o trombone de Zé da Velha e o trompete de Silvério Pontes era notável, caracterizada por improvisos ágeis e diálogos musicais que encantavam o público.

Discografia e Impacto na Música Instrumental

A discografia da dupla Zé da Velha & Silvério Pontes teve início na década de 1990, e ao longo de quase duas décadas, eles lançaram seis álbuns aclamados no nicho da música instrumental. O primeiro deles, “Só Gafieira” (1995), lançado há 30 anos, solidificou a reputação da dupla e abriu caminho para uma série de trabalhos de sucesso. Este disco inaugural foi seguido por “Tudo Dança” (1998), “Ele & Eu” (2000), “Samba Instrumental” (2003), “Só Pixinguinha” (2006) – um tributo ao mestre que tanto influenciou Zé da Velha – e “Ouro e Prata” (2012). Cada álbum demonstrava a versatilidade, a técnica assombrosa e a paixão inabalável da dupla pelo choro e pela música instrumental brasileira, deixando um repertório vasto e inspirador para futuras gerações.

A Trajetória e o Reconhecimento

Ao longo de sua vasta carreira, Zé da Velha não se limitou à dupla com Silvério Pontes. A partir dos anos 1970, sua trajetória incluiu passagens por diversas formações musicais, como o Conjunto Sambalândia, a Orquestra Gentil Guedes e os grupos Chapéu de Palha e Suvaco de Cobra. Essas experiências diversificadas enriqueceram seu repertório e sua capacidade de adaptação, consolidando-o como um músico completo e versátil. Sua habilidade de improviso e a técnica apurada no trombone eram constantemente elogiadas por críticos e colegas, que o viam como um trombonista de técnica “assombrosa”, capaz de emocionar e surpreender a cada nota.

Os Últimos Anos e o Luto da Música Brasileira

Nos últimos sete anos, Zé da Velha esteve afastado dos palcos e estúdios devido a problemas de saúde, que se agravaram significativamente em 2025, com duas pneumonias, culminando na infecção bacteriana fatal. Silvério Pontes, seu parceiro de longa data e “filho musical”, expressou profunda emoção em uma homenagem. “Foi com o mestre Zé da Velha que comecei a entender o que era tocar com a alma e o coração, servindo à música. Zé da Velha me ensinou a tocar Choro, mas, principalmente, me ensinou a ser. A respeitar a música, a tradição, o silêncio entre as notas. A tocar com o coração arrepiado”, relembrou Silvério, capturando a essência do legado que Zé da Velha deixa não apenas como músico, mas como mentor e ser humano. Sua morte engrossa a lista de artistas singulares e insubstituíveis que a música brasileira perdeu, provocando um luto irreversível na cena cultural do país.

Para Sempre na Memória Musical

A partida de Zé da Velha representa o fechamento de um ciclo para o choro e a música instrumental brasileira. Contudo, seu trabalho, sua dedicação e sua capacidade de inovar enquanto reverenciava a tradição garantem sua imortalidade. José Alberto Rodrigues Matos, o Zé da Velha, será sempre lembrado como um dos grandes trombonistas que soube honrar o passado do choro e pavimentar caminhos para o seu futuro, sendo um exemplo de virtuosismo, paixão e humildade. Sua obra continuará a inspirar músicos e a encantar ouvintes, perpetuando a melodia e o ritmo que ele tão brilhantemente ajudou a moldar.

Para revisitar a obra de Zé da Velha e apreciar o legado de sua “menor big band do mundo”, os seis álbuns da dupla com Silvério Pontes estão disponíveis nas principais plataformas de streaming, garantindo que sua música continue viva.

Fonte: https://g1.globo.com

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