PUBLICIDADE

Khamenei reitera que governo não recuará ante protestos no Irã

G1

O Irã enfrenta uma de suas mais significativas ondas de instabilidade interna em anos, com protestos no Irã generalizados que persistem por quase duas semanas. Nesta sexta-feira (9), o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, declarou em pronunciamento transmitido pela televisão estatal que seu governo “não vai recuar” frente às manifestações que varrem a capital Teerã e outras cidades. Khamenei rotulou os manifestantes de “vândalos” e “sabotadores”, sinalizando uma postura intransigente do regime em meio à crescente agitação popular. A crise sublinha a profunda insatisfação da população com a situação econômica e política, desencadeando confrontos severos e uma intensa repressão estatal.

Escalada da repressão e a firmeza do líder supremo

A postura de Ali Khamenei diante da insurreição
Desde o início dos protestos, a retórica oficial iraniana tem endurecido, culminando na declaração enfática do aiatolá Ali Khamenei. O líder supremo, figura de autoridade máxima no Irã desde 1989, utilizou termos fortes para descrever os participantes dos atos, classificando-os como elementos destrutivos. Essa postura sublinha a determinação do regime em não ceder às pressões, posicionando as manifestações como atos de sabotagem orquestrados e não como legítimas expressões de descontentamento popular. A mensagem de Khamenei, cuidadosamente veiculada pela mídia estatal, visava reafirmar o controle e deslegitimar o movimento, buscando consolidar a lealdade de suas bases e das forças de segurança.

Intensificação das medidas de segurança
A resposta do governo iraniano aos protestos foi caracterizada por uma repressão crescente. Nos últimos dias, as forças de segurança intensificaram suas operações contra os manifestantes, culminando em prisões em massa e confrontos violentos. Paralelamente, o acesso à internet em todo o país foi severamente restringido, uma tática comum utilizada por regimes autoritários para dificultar a organização dos protestos, limitar a disseminação de informações e imagens da repressão, e isolar os manifestantes do apoio externo. Essa estratégia de corte de comunicação, confirmada por organizações de vigilância de segurança cibernética, como a Netblocks, é um indicativo claro da gravidade com que o regime encara a ameaça dos distúrbios e sua tentativa de sufocar a dissidência.

As raízes da insatisfação popular e a amplitude dos atos

Gatilhos econômicos e a crise do rial
Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, em Teerã, impulsionados inicialmente por uma onda de insatisfação econômica. Comerciantes da capital organizaram uma manifestação contra o aumento drástico dos preços de bens essenciais e o colapso do rial, a moeda local. A inflação galopante e a desvalorização monetária têm corroído o poder de compra da população, gerando um ambiente de profunda insegurança financeira. A crise econômica, agravada por sanções internacionais e má gestão interna, tem sido um fator persistente de descontentamento no Irã, e serviu como o estopim para a eclosão desta última onda de manifestações.

Da economia à contestação política: a evolução das demandas
Embora os protestos tenham começado com pautas econômicas, rapidamente se expandiram para incluir reivindicações de natureza política, refletindo uma insatisfação mais profunda com o regime. As manifestações se espalharam para 25 das 31 províncias iranianas, com atos em diversas cidades, demonstrando a capilaridade do descontentamento. Slogans entoados pelos manifestantes, como “é a batalha final, Pahlavi voltará” – uma referência à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979 – e “Seyyed Ali será destituído”, mirando diretamente o líder supremo Ali Khamenei, evidenciam uma clara contestação à estrutura de poder atual. Essa transição das pautas, de econômicas para políticas e até mesmo com apelo a um retorno ao passado pré-revolucionário, mostra a profundidade da crise de legitimidade enfrentada pelo governo.

O balanço humano dos confrontos

Relatos de mortes e feridos
O custo humano dos protestos tem sido elevado. Embora o número exato de vítimas ainda seja incerto, a organização Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, reportou que pelo menos 45 manifestantes perderam a vida, incluindo oito menores de idade. A quarta-feira (7) foi descrita como o dia mais sangrento, com 13 mortes registradas pela mesma organização. Além das vítimas fatais entre os manifestantes, membros das forças de segurança também foram mortos em confrontos. Centenas de pessoas ficaram feridas, exigindo atendimento médico em meio à caótica situação. Estes números, embora difíceis de verificar de forma independente devido às restrições de comunicação, pintam um quadro sombrio da violência empregada para reprimir os atos.

Prisões em massa e a supressão da comunicação
A repressão governamental não se limitou ao uso da força letal. Mais de 2 mil pessoas foram detidas desde o início dos protestos, conforme relatos de organizações de direitos humanos. Essas prisões em massa têm como objetivo desarticular o movimento, intimidar a população e silenciar vozes dissidentes. A detenção de ativistas, jornalistas e cidadãos comuns que participaram ou apoiaram os protestos faz parte da estratégia do regime para restaurar a ordem a qualquer custo. A interrupção generalizada da internet, mencionada anteriormente, agrava a situação das prisões, dificultando que as famílias obtenham informações sobre o paradeiro de seus entes queridos e que as violações dos direitos humanos sejam devidamente documentadas e denunciadas.

Reações internacionais e apelos à moderação

A advertência dos Estados Unidos
A situação no Irã tem atraído a atenção e a preocupação da comunidade internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou-se sobre os protestos, emitindo uma forte advertência ao regime iraniano. Em uma entrevista, Trump declarou: “Deixei claro para eles que, se começarem a matar pessoas — o que tendem a fazer durante seus distúrbios, eles têm muitos distúrbios —, se fizerem isso, nós os atingiremos muito duramente”. Essa declaração reflete a tensão contínua nas relações entre Washington e Teerã, e indica uma possível escalada de pressão internacional sobre o governo iraniano caso a violência contra os manifestantes persista ou aumente.

A voz do presidente Pezeshkian e o apelo ao diálogo
Contrastando com a postura de linha-dura do líder supremo Khamenei, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, tem adotado um tom mais conciliador. Nesta quinta-feira, ele voltou a pedir “a máxima moderação” frente aos manifestantes, além de advogar pelo “diálogo” e pela escuta atenta às “reivindicações do povo”. O apelo de Pezeshkian sugere uma divisão interna, ou pelo menos uma tentativa de apresentar uma face mais branda do regime, reconhecendo a legitimidade de algumas das queixas populares, ainda que de forma contida. No entanto, a autoridade suprema no sistema político iraniano é o aiatolá, o que faz com que a declaração de Khamenei sobre não recuar tenha um peso muito maior na determinação das ações governamentais.

Cenário persistente de desafios para o regime

Paralelos históricos e a resiliência dos protestos
Os atuais protestos são considerados os maiores no Irã desde as manifestações que eclodiram após a morte de Mahsa Amini em 2022, que foi detida pela polícia da moralidade por supostamente violar as rígidas normas de vestuário para mulheres. A persistência e a amplitude dos atos atuais, abrangendo múltiplas províncias e pautas diversas, demonstram uma resiliência e um profundo nível de insatisfação que desafiam a capacidade do regime de simplesmente reprimir e silenciar a oposição. O histórico de grandes manifestações no país, com picos de agitação em diferentes momentos, sugere que as raízes da contestação são profundas e complexas, não se limitando a eventos isolados, mas refletindo tensões estruturais.

Perspectivas futuras da instabilidade no Irã
A intransigência do líder supremo Ali Khamenei, combinada com a determinação dos manifestantes em continuar expressando seu descontentamento, aponta para um cenário de persistente instabilidade no Irã. O governo demonstra estar disposto a usar a força e a repressão para manter o controle, enquanto a população, especialmente os jovens, parece cada vez mais disposta a arriscar-se para expressar suas demandas por mudanças econômicas e políticas. O futuro do país dependerá da capacidade do regime de responder a essas tensões sem provocar uma escalada ainda maior da violência, e da habilidade dos manifestantes em manter a coesão e a pressão em um ambiente de severa repressão.

Para entender a complexidade e as ramificações desta crise, é fundamental acompanhar os desdobramentos diários e as análises aprofundadas sobre o panorama iraniano.

Fonte: https://g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE