PUBLICIDADE

Juiz de Fora: desastre climático reflete negligência

© Tomaz Silva/Agência Brasil

A Zona da Mata mineira foi palco de uma tragédia devastadora, com temporais que resultaram em 47 mortes, além de deixar milhares de desabrigados e desalojados. Este cenário crítico, que atingiu especialmente Juiz de Fora e Ubá, é visto por especialistas como um reflexo direto da negligência em relação às mudanças climáticas e à falta de planejamento urbano. Enxurradas, deslizamentos e cheias de rios, acima do normal, evidenciam uma vulnerabilidade que transcende eventos meteorológicos isolados. Profissionais da área de geociências e hidrologia alertam que a recorrência de eventos extremos é uma tendência consolidada, sublinhando a urgência de uma reavaliação profunda nas políticas públicas e na gestão territorial.

A conexão inegável entre extremos climáticos e negligência

Os eventos climáticos extremos que assolaram a Zona da Mata mineira não são fenômenos isolados, mas sim manifestações claras das mudanças climáticas globais, conforme avaliado por geógrafos e meteorologistas. A intensificação das chuvas e a elevação de seus volumes em curtos períodos tornam-se cada vez mais comuns, exigindo uma compreensão aprofundada das interações entre fatores climáticos e humanos. A análise sugere que a ocorrência de fortes chuvas, resultando em enxurradas, deslizamentos de terra e cheias de rios acima dos níveis históricos, é uma consequência direta do aquecimento global.

O impacto do negacionismo e a urgência de políticas ambientais

A visão de especialistas aponta que a prevenção de desastres como os observados em Juiz de Fora e Ubá passa, necessariamente, pela adoção de uma agenda robusta de políticas públicas voltadas para o meio ambiente. Contudo, essa pauta tem sido sistematicamente negligenciada nos últimos anos, influenciada por uma onda de negacionismo em relação às mudanças climáticas. Essa postura política, que muitas vezes apresenta a proteção ambiental como um entrave ao desenvolvimento econômico, reverbera diretamente em tragédias como as vivenciadas pela população mineira. A falsa contraposição entre crescimento e sustentabilidade é frequentemente instrumentalizada em debates eleitorais, comprometendo ações cruciais de prevenção e mitigação.

A negligência não se restringe a um nível de governo, sendo observada em esferas locais, estaduais e federais, e até mesmo em um contexto global. O especialista em hidrologia e riscos socioambientais, Miguel Felippe, ressalta que as chuvas extremas e outros eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes. O aquecimento do Oceano Atlântico, por exemplo, que registra temperaturas até 3°C acima da média, intensifica a evaporação e a umidade transportada para o continente. Ao encontrar as montanhas da região, essa umidade se precipita em chuvas torrenciais, exacerbando a suscetibilidade natural de áreas como Juiz de Fora, caracterizada por sua topografia montanhosa. Esse cenário geográfico, combinado com a crescente umidade atmosférica, transforma a cidade em um dos locais que mais recebem alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Vulnerabilidade urbana e o desafio da resiliência

A tragédia em Juiz de Fora não se deve apenas a fatores climáticos, mas é profundamente enraizada na vulnerabilidade urbana, que expõe principalmente as populações de baixa renda a riscos desproporcionais. A forma como as cidades se desenvolvem e o controle sobre o uso do solo são elementos cruciais para entender a magnitude dos desastres.

Segregação socioeconômica e a ocupação de áreas de risco

O planejamento urbano inadequado e a dinâmica do mercado imobiliário têm um papel central na configuração das áreas de risco. Especialistas destacam que o poder público perdeu o controle sobre os terrenos para o capital imobiliário, que, na prática, define o valor dos imóveis e, consequentemente, o perfil socioeconômico de seus moradores. O resultado é a marginalização das pessoas de menor poder aquisitivo, empurradas para áreas de menor valor econômico, que são, invariavelmente, as de maior risco de desastre ambiental. O discurso de que a população pobre não deveria ocupar áreas de risco desconsidera essa dinâmica fundamental: é a estrutura de valorização da terra que determina quem pode morar onde. Dessa forma, as regiões mais afetadas em Juiz de Fora, com maiores perdas de vidas e materiais, são justamente os bairros mais carentes, onde a capacidade de resiliência e recuperação é significativamente menor.

Apesar de as áreas de risco serem amplamente conhecidas, as ações de mitigação e prevenção, parte essencial de uma política ambiental eficaz, frequentemente esbarram na falta de recursos. Levantamentos apontam cortes expressivos em verbas destinadas ao enfrentamento de chuvas em Minas Gerais, com a defesa civil estadual tendo seus recursos drasticamente reduzidos de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025. Essa redução, coincidentemente com o segundo governo de Romeu Zema, exemplifica a despriorização de uma pauta vital para a segurança da população. Essa carência de investimentos agrava a exposição de milhares de pessoas, como demonstrado pelo Cemaden, que indica Juiz de Fora como uma das cidades com maior proporção de habitantes em áreas de risco.

Soluções de engenharia, planejamento e conscientização

Para enfrentar a crescente ameaça de desastres, é imperativo adotar uma abordagem multifacetada que inclua soluções de engenharia, planejamento urbano e educação comunitária. Uma das estratégias é a construção de pôlderes em áreas de várzea e próximas a rios, técnica de engenharia que envolve a isolamento de áreas inundáveis por muros e a utilização de bombas para remover o excesso de água. Essa solução, embora de manutenção constante, pode ser decisiva em grandes volumes de chuva, permitindo que a cidade conviva melhor com eventos de cheia.

Outra intervenção fundamental é tornar o solo mais permeável nas áreas urbanas, especialmente em regiões de várzea. Ao contrário de uma floresta, onde 90% da chuva se infiltra, em um bairro urbanizado, quase 90% da água se transforma em escoamento superficial, causando alagamentos. A criação de parques públicos em áreas de várzea e a implementação de superfícies permeáveis podem reverter essa tendência, absorvendo a água e reduzindo o impacto das enxurradas.

Além das soluções estruturais, a conscientização da população é vital. Muitos moradores de áreas de risco não sabem como agir em caso de alertas geológicos. É crucial desenvolver planos de contingência claros e realizar trabalhos de campo para instruir as comunidades, como no Japão, onde os cidadãos são treinados para rotas de fuga. A Defesa Civil não pode evacuar individualmente; a autonomia e o conhecimento da população são essenciais.

Juiz de Fora já possui estudos para intervenções em bairros específicos. O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas no município entre 2024 e 2025, por meio do Novo PAC, com R$ 1,2 milhão já liberados. Para a drenagem urbana, um repasse de R$ 356 milhões está programado, destinado ao projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100, que abrange bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata. No entanto, a celeridade na execução dessas obras e a liberação efetiva dos recursos são determinantes para a segurança da população.

Conclusão

Os recentes desastres em Juiz de Fora e na Zona da Mata mineira são um grito de alerta que ecoa a urgência da crise climática e as consequências da negligência sistêmica. A combinação de um oceano mais quente, topografia vulnerável e, crucialmente, uma política urbana que desconsidera riscos e segrega populações, cria um ciclo de tragédias previsíveis. A resiliência das cidades não será construída apenas com obras de engenharia, mas com uma transformação profunda na forma como governamos, planejamos e nos relacionamos com o meio ambiente. É fundamental que as lições aprendidas com cada desastre se traduzam em ações concretas, priorizando vidas e a sustentabilidade a longo prazo.

Para que desastres como o de Juiz de Fora não se repitam, é imperativo que a sociedade civil e as autoridades demandem e implementem políticas públicas transparentes e investimentos contínuos em prevenção, resiliência e adaptação climática.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE