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Indígenas relatam que desmatamento impacta a produção de cocares

© Bruno Peres/Agência Brasil

A preservação da cultura e das tradições dos povos indígenas enfrenta um desafio crescente no Brasil, diretamente ligado à degradação ambiental. Em Brasília, durante o recente Acampamento Terra Livre, uma voz se levantou para alertar sobre as consequências alarmantes do desmatamento e das queimadas nos territórios ancestrais. Artesãos indígenas, guardiões de um saber milenar, veem a produção de seus cocares, símbolos de identidade e resistência, ameaçada pela diminuição drástica das populações de aves. Tapurumã Pataxó, um dos porta-vozes, destacou a relação intrínseca entre a saúde do ecossistema e a continuidade de sua arte, evidenciando como a ação de invasores e grileiros compromete não apenas a natureza, mas o próprio patrimônio cultural do país. Este cenário exige atenção urgente e compreensão profunda sobre as interconexões entre meio ambiente e cultura indígena. O desaparecimento de aves impede a confecção desses adornos sagrados, um elo vital com suas raízes.

Ameaça ambiental aos povos e à sua arte

Redução drástica das aves nos territórios

O cenário de alerta foi trazido por Tapurumã Pataxó, um artesão de 32 anos da Aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), durante o Acampamento Terra Livre. Com um cocar ancestral adornado com penas de maritaca e arara, ele relatou a preocupante diminuição das aves nos céus dos territórios indígenas. Essa escassez tem um impacto direto e profundo na produção artesanal de cocares, uma prática cultural de grande importância. Segundo lideranças indígenas, essa mudança dramática é resultado direto do desmatamento, das queimadas criminosas e do uso indiscriminado de agrotóxicos, ações implementadas por grileiros e invasores não-indígenas que avançam sobre suas terras.

Tapurumã Pataxó, que aprendeu a produzir cocares na infância com seus avós, lamenta a destruição. “Os fazendeiros estão acabando não só com o nosso território, mas com o Brasil todo”, declarou o artista. Ele fez um paralelo histórico, lembrando que seu povo, os Pataxó, “somos o primeiro povo que teve contato com os portugueses. E somos desmatados desde 1500”. O artista recorda que, em sua infância, a quantidade de araras era significativamente maior do que a observada atualmente. Para mitigar o problema, a comunidade Pataxó tem implementado projetos ambientais voltados para a reinserção de aves no ecossistema, buscando restaurar o equilíbrio natural. A confecção dos cocares depende das penas que caem naturalmente dos animais, o que torna a diminuição das populações de aves um problema cultural e prático. “Há muitos animais da minha infância que já desapareceram porque tem muita queimada criminosa”, desabafou Tapurumã, ressaltando a urgência da situação.

Consequências culturais e a busca por soluções

O impacto na tradição e a criatividade em tempos de crise

A escassez de penas tem levado os artesãos a buscar alternativas, muitas vezes dolorosas. Ahnã Pataxó, de 45 anos, também da Aldeia Velha, em Porto Seguro (BA), revela que, em desespero, precisa recorrer até mesmo a zoológicos para obter as penas necessárias. “É uma tristeza muito grande você ver que os animais que eram livres estão hoje em uma área fechada por causa do desmatamento e da falta de consciência ambiental do ser humano”, expressou Ahnã. No seu cotidiano, ela sente a ausência de aves majestosas como o gavião real, a arara e até mesmo o papagaio, que se tornou bem escasso. A artesã faz um apelo por mais ações de conscientização ambiental, fundamentais para a preservação dessas espécies e, consequentemente, da cultura indígena.

O impacto ambiental é uma realidade sentida por diversas etnias. Keno Fulni-ô, um artesão de 40 anos de uma aldeia próxima à cidade de Águas Belas (PE), compartilha a mesma preocupação. Em sua região, aves como o gavião, o caracará, a garça e o anu, embora ainda presentes, exibem comportamentos alterados pelas mudanças climáticas. Durante encontros como o Acampamento Terra Livre, os artesãos aproveitam a oportunidade para realizar trocas de materiais, como as penas, reconhecendo que cada habitat possui aves típicas, com diferentes níveis de resiliência aos impactos ambientais. Essa rede de apoio e intercâmbio demonstra a capacidade de adaptação e a união entre os povos diante das adversidades.

O valor simbólico e a preservação do legado

Cocares: mais que adornos, símbolos de identidade e resistência

Para os povos indígenas, o cocar vai muito além de um simples adorno. Ele é um símbolo carregado de significados profundos, que expressam a identidade, a proteção e a resistência de cada etnia. Tapurumã Pataxó enfatiza essa dimensão: “O cocar tem o sentido de nossa resistência. É o que nos protege e nos dá força pra lutar pelos nossos direitos, pela educação e pela demarcação do nosso território”. Dada a profundidade desse simbolismo, o artista Pataxó faz um apelo para que não-indígenas que adquirem um cocar o façam com respeito e reverência, guardando-o como um objeto de arte e proteção em seus lares. “Um não indígena comprar para ficar usando como se fosse um indígena não é legal”, alertou.

Essa mesma perspectiva de respeito é compartilhada por Keno Fulni-ô, que pede que os não-indígenas compreendam a sacralidade do cocar. “Esperamos que uma pessoa não coloque um cocar na cabeça e vá beber, por exemplo. Ir para carnaval. Não é o que o nosso povo espera”, disse. Ahnã Pataxó adiciona que o cocar é um símbolo de aliança. Em casamentos tradicionais, o cocar substitui a aliança de metal, selando a união de forma profunda. A própria costura das penas no objeto artístico é metafórica, como “se a gente estivesse unindo todo o nosso povo”, compara a artesã.

A confecção de um cocar é um ato de união e transmissão de saberes. Foi essa união do povo Fulni-ô que permitiu que o jovem Aalôa, de 21 anos, que vive em uma aldeia em Águas Belas, aprendesse a arte do cocar aos 14 anos. Seus amigos, presentes no Acampamento Terra Livre, destacaram sua notável habilidade na produção dessas peças. Enquanto costurava um cocar com penas de papagaio, Aalôa demonstrava a destreza necessária para concluir a arte em menos de 30 minutos, após um processo meticuloso de limpeza, tingimento e costura pena a pena. Ele expressou a satisfação em criar: “Eu me sinto muito bem em fazer. Acaba com o estresse, me relaxa. Somos a voz do nosso povo e uma só família”. A confecção do cocar é, portanto, um ato de conexão consigo mesmo, com a comunidade e com a ancestralidade.

A urgência da proteção ambiental e cultural

A voz dos artesãos indígenas ecoa um apelo urgente pela proteção do meio ambiente e da cultura. O desmatamento e as mudanças climáticas não são apenas questões ecológicas; eles representam uma ameaça direta à subsistência e à identidade dos povos originários, comprometendo a produção de artefatos ancestrais como os cocares. A resiliência e a sabedoria desses povos, manifestadas em projetos de reinserção de aves e na busca por soluções criativas, destacam a importância de se valorizar e apoiar suas lutas. A preservação de suas terras e tradições é um legado para toda a humanidade, um testemunho da profunda conexão entre a natureza e a cultura. Reconhecer o cocar como um símbolo de resistência e identidade, e não como um mero adereço, é um passo fundamental para honrar a história e o futuro desses povos.

Para aprofundar a compreensão sobre os desafios enfrentados pelos povos indígenas e apoiar iniciativas de preservação ambiental e cultural, procure organizações e projetos que atuam na defesa dos direitos e territórios indígenas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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