As histórias em quadrinhos (HQs), ou graphic novels, emergem como uma ferramenta promissora e eficaz na promoção da educação antirracista, especialmente na formação de futuros educadores. Um estudo pioneiro, desenvolvido pela doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva, no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense (UFF), demonstrou o potencial desses materiais para fomentar reflexões cruciais sobre questões étnico-raciais. A pesquisa enfatiza como as graphic novels, com suas narrativas completas e ricas em imagens e textos, podem engajar de forma profunda professores em formação no Curso Normal, capacitando-os a levar essa discussão vital para as salas de aula. A abordagem inovadora oferece um caminho mais acessível e atraente para abordar um tema complexo e muitas vezes negligenciado no ambiente escolar. Fernanda da Silva destaca que as HQs possuem uma capacidade única de atrair o público para um diálogo significativo sobre o racismo.
A gênese de uma pesquisa transformadora
Da experiência pessoal à tese de doutorado
Apaixonada por histórias em quadrinhos desde a infância, Fernanda Pereira da Silva, professora e doutoranda, trilhou um caminho que a levou a uma profunda reflexão sobre as relações étnico-raciais no Brasil. Foi durante seu mestrado, focado em heróis negros das HQs, que ela percebeu uma lacuna em sua própria formação e na abordagem do tema na sociedade. “Me senti uma ignorante, porque nunca tinha parado para tratar de questões raciais. A questão é de todo mundo, independente da cor da pele”, afirmou Fernanda. Essa constatação impulsionou sua crença no poder das HQs para catalisar o debate sobre racismo.
Em 2018, um evento nacional consolidou sua linha de pesquisa para o doutorado: o lançamento de graphic novels com protagonistas negros – Carolina, Cumbe e Angola Janga – no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Vendo a inserção desses materiais em um programa governamental, Fernanda percebeu a oportunidade de investigar como as graphic novels poderiam enriquecer o debate racial na formação inicial dos professores do ensino fundamental. “Vi a importância de trabalhar isso na formação inicial para que esses professores se estimulem no sentido de continuar o debate antirracista na sua formação posterior. Daí o meu interesse de inserir as HQs para trazer a discussão antirracista para dentro da sala de aula”, explicou a pesquisadora. Sua tese de doutorado, intitulada “Cotidiano, escola e Graphic novel: O papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais”, foi desenvolvida sob a orientação da professora Walcéa Barreto Alves, da Faculdade de Educação da UFF.
O campo de estudo e a realidade desvelada
Racismo velado e lei não cumprida
A pesquisa de Fernanda envolveu um trabalho de campo no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, onde interagiu com alunos do segundo ano do ensino médio, dos quais a maioria expressiva, cerca de 95%, era negra. As observações em campo revelaram uma realidade preocupante: o tema do racismo é abordado nas escolas predominantemente em novembro, durante o Mês da Consciência Negra, sendo negligenciado no restante do ano letivo. Contudo, os estudantes relataram vivenciar situações de racismo e discriminação no seu cotidiano, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar, o que contrasta com a abordagem esporádica da temática. A ausência de um planejamento escolar contínuo para tratar a questão racial foi uma das principais constatações.
Adicionalmente, a pesquisa apontou uma grave falha na implementação da legislação educacional. A Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todos os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados, não é cumprida em 71% dos municípios brasileiros, de acordo com levantamentos de instituições especializadas. Um dos argumentos frequentemente apresentados por educadores para a não aplicação da lei é a percepção de que o tema é “polêmico e difícil de trabalhar”. Fernanda Pereira da Silva refuta veementemente essa justificativa, argumentando que a questão do racismo “não é polêmico. Faz parte da nossa história” e pode ser abordada de diversas maneiras. Ela sugeriu a possibilidade de convidar palestrantes para a escola e, principalmente, a busca por elementos atrativos, como as HQs. “Por que não levar a história da escritora Carolina Maria de Jesus e, através das graphic novels, apresentar para os estudantes e, contando a história daquela escritora, falar sobre educação antirracista?”, questionou, destacando o potencial das narrativas visuais para engajar os alunos.
A intervenção pedagógica e o protagonismo negro
HQs como ponte para o diálogo e a identidade
A professora Walcéa Barreto Alves, orientadora da tese, enfatizou o caráter interventivo do trabalho de campo de Fernanda, que transcendeu a mera observação teórica para atuar diretamente na realidade escolar. Essa imersão permitiu à pesquisadora acompanhar o dia a dia dos estudantes e verificar a efetividade do debate sobre questões étnico-raciais na formação dos futuros professores. Conforme Walcéa, foi confirmado que o debate não ocorria cotidianamente, ficando restrito, em grande parte, ao mês de novembro.
Através de entrevistas e questionários, os alunos revelaram suas vivências de racismo em múltiplos contextos. A preocupação central de Fernanda foi capacitar esses futuros educadores para que pudessem abordar o tema com as novas gerações. “A ideia da Fernanda foi fazer uma prática interventiva, como fez com essas graphic novels, para eles terem acesso a esse material e terem possibilidade de desdobramento na sua prática docente”, destacou a professora Walcéa, ressaltando o valor de escutar quem está diretamente inserido nesse cotidiano. Fernanda argumentou que as HQs proporcionam uma maneira mais atrativa de trabalhar as relações étnico-raciais, especialmente ao explorar a história de personagens negros, o que “vai puxando várias discussões”.
Um ponto crucial levantado pela tese, conforme Walcéa, é a promoção de uma perspectiva positiva e de liderança dos personagens negros. Diferentemente de muitas obras didáticas que relegam pessoas negras a papéis secundários, as graphic novels utilizadas focam no protagonismo e na identidade positiva da raça negra e dos povos originários do Brasil. “Em muitas obras, percebe-se que as pessoas negras são sempre colocadas de canto; são, no máximo, coadjuvantes. Não há um protagonismo, em especial em material didático, que coloque a identidade positiva da questão racial”, explicou Walcéa, apontando para uma visão ainda muito colonialista. O objetivo da pesquisa, portanto, é introduzir materiais com uma perspectiva decolonial no debate étnico-racial.
A leveza e profundidade das graphic novels
Uma ferramenta essencial para a educação antirracista
A professora Walcéa Barreto Alves avalia que as histórias em quadrinhos constituem uma ferramenta essencial para ampliar o debate sobre racismo. Ela destaca que as HQs “trazem uma leveza e, ao mesmo tempo, conseguem trabalhar o tema com profundidade, devido aos recursos visuais, à própria organização textual que facilitam a leitura da criança e do adolescente e, inclusive, dos adultos”. Além de serem acessíveis, esses materiais permitem um aprofundamento de questões complexas e a exploração de tópicos paralelos à narrativa principal, tornando-as “uma ferramenta importantíssima e muito valiosa”.
A educadora defende a necessidade de um trabalho de conscientização e de amplo acesso a esses materiais, pois podem ser aplicados em qualquer disciplina para debater, esclarecer e valorizar a questão étnico-racial, tanto dentro quanto fora da escola, desde os anos iniciais. Walcéa reforça a urgência de avançar na integração das HQs no planejamento pedagógico e na prática em sala de aula, reconhecendo seu potencial transformador na construção de uma educação verdadeiramente antirracista.
Conclusão
A pesquisa da doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva solidifica a proposta de que as graphic novels são mais do que entretenimento: são instrumentos pedagógicos poderosos para a educação antirracista. Ao desvelar as lacunas na abordagem do racismo nas escolas e a não conformidade com leis essenciais, o estudo oferece um caminho inovador e eficaz para engajar futuros professores e estudantes na construção de uma sociedade mais justa e equitativa. A capacidade das HQs de abordar temas complexos com leveza e profundidade, aliada à promoção do protagonismo negro, as posiciona como um recurso indispensável para que o debate étnico-racial se torne uma constante no ambiente escolar, transcendendo a mera menção em datas comemorativas e se integrando ao currículo de forma significativa.
Para aprofundar seu conhecimento sobre o uso de mídias inovadoras na educação e o fortalecimento de práticas antirracistas, considere explorar os recursos e estudos disponíveis sobre o tema.