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Grande Rio desfila Manguebeat e a força da periferia

© Fernando Frazão/Agência Brasil

A Acadêmicos do Grande Rio se prepara para levar a vibrante cultura pernambucana para a Marquês de Sapucaí, com um enredo inovador que mergulha nas raízes do movimento Manguebeat. Prometendo uma fusão de ritmos e simbolismos, a escola de samba da Baixada Fluminense abordará a força transformadora da periferia e a resiliência cultural, unindo as lamas do manguezal do Rio Capibaribe, em Recife, às de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Este desfile é mais do que uma celebração musical; é um manifesto sobre criatividade e superação social. O carnavalesco Antônio Gonzaga, responsável pelo enredo “A Nação do Mangue”, destaca a profunda conexão entre a escola e o movimento, ambos nascidos em contextos de efervescência cultural e social, propondo um diálogo entre as realidades das duas regiões.

A conexão entre os mangues e a sapucaí

O enredo “A Nação do Mangue” foi concebido para celebrar a riqueza do movimento Manguebeat e, ao mesmo tempo, estabelecer um elo com a identidade da Grande Rio. Antônio Gonzaga, embora mais jovem que o próprio movimento, encontrou inspiração e afinidade com a proposta. Para ele, o tema dialoga diretamente com o modo da escola de fazer carnaval, com seu estilo estético e com seu discurso. A essência do Manguebeat – a mistura de ritmos regionais com influências globais, a valorização da periferia e a crítica social – ressoa com a própria história e a atuação da Grande Rio, que frequentemente aborda temas relevantes e de impacto social em seus desfiles. Essa confluência de propósitos entre o ritmo pernambucano e a escola da Baixada Fluminense é o alicerce para uma apresentação que promete ser memorável, unindo arte, música e uma mensagem de transformação social.

Raízes da inspiração e o manifesto “caranguejos com cérebro”

A inspiração para este enredo veio de uma conversa entre Antônio Gonzaga e seu pai, o jornalista e escritor Renato Lemos, autor do livro Inventores do Carnaval e um grande admirador de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. A afeição de Gonzaga pelo som de Nação Zumbi desde a infância, aliada à percepção de que o Manguebeat nunca havia sido enredo de uma escola de samba, solidificou a ideia de trazê-lo para a avenida. O movimento Manguebeat, surgido em Recife nos anos 1990, foi um marco cultural que fundiu guitarras do heavy metal e do reggae com a percussão marcante do maracatu, do coco e da ciranda. Bandas como Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi foram pioneiras nessa experimentação sonora, que não apenas mudou a cena cultural recifense, mas também ressignificou a lama dos manguezais como uma metáfora de resistência, criatividade e fertilidade das periferias, longe dos grandes eixos culturais do país.

O “Manifesto Caranguejos com Cérebro”, escrito em 1992 pelo jornalista Fred Zero Quatro, vocalista da Mundo Livre S/A, encapsulou essa filosofia. O texto questionava: “O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.” Este documento histórico é a base conceitual que a Grande Rio levará para a avenida, evidenciando a visão crítica e propositiva do movimento e sua capacidade de inspirar a superação em contextos desafiadores.

Paralelos geográficos e sociais

A conexão entre o Manguebeat e a Grande Rio transcendeu a admiração pessoal, encontrando um forte elo nas semelhanças geográficas e sociais entre a região de Recife e Duque de Caxias. Pesquisando a fundo, Gonzaga descobriu que Caxias é uma cidade igualmente cercada por manguezais, o que fortaleceu a ideia de um paralelo entre os movimentos de periferia da Baixada Fluminense e a efervescência cultural de Pernambuco. Essa identificação mútua se tornou o “pulo do gato” para o desenvolvimento do enredo, permitindo que a escola caxiense se aproprie do tema de forma autêntica e profunda, ligando as realidades de resistência e criatividade inerentes a ambas as regiões. A dualidade da lama, que ora simboliza estagnação, ora fertilidade e vida, será um ponto central na narrativa visual e sonora da escola, ressaltando a capacidade humana de transformar adversidades em oportunidades de expressão cultural e social.

Ritmos, cores e a busca pelo bicampeonato

A representação de Pernambuco na Sapucaí será minuciosa, com fantasias e alegorias distribuídas em seis setores, contando com cinco carros alegóricos e três tripés. Antônio Gonzaga promete um carnaval vibrante e colorido, com a presença de diversas personalidades recifenses que se juntarão à Grande Rio na busca pelo bicampeonato. A plasticidade do Manguebeat, com suas texturas, cores e a representação da biodiversidade dos manguezais, será traduzida em luxuosas e criativas concepções visuais, buscando capturar a essência da cultura pernambucana e a força de seu movimento musical. O desfile promete ser um espetáculo de formas e significados, onde cada detalhe contribuirá para narrar a história e a relevância do Manguebeat no cenário cultural brasileiro.

A batucada inspirada no manguebeat

A bateria da Grande Rio, o “coração do carnaval”, sob o comando do mestre Fabrício Machado de Lima, o Mestre Fafá, de 34 anos, está preparada para surpreender com uma sonoridade inovadora. Os 270 ritmistas estão prontos para sustentar o desfile, utilizando surdos de primeira, segunda e terceira, caixas, repiques, agogôs, chocalhos e tamborins em arranjos que farão referências diretas ao frevo e ao maracatu, além de explorar as “viagens” musicais e rítmicas de Chico Science. Mestre Fafá garante “muita alegria, muita bossa inspirada no trabalho de Chico, um cara que misturava muitos ritmos”, prometendo uma experiência auditiva rica e autêntica, capaz de transportar o público para as paisagens sonoras do Manguebeat.

Além da percussão, a ala da bateria trará uma representação visual significativa: a fantasia dos ritmistas homenageará o bloco afro Lamento Negro, um dos blocos que Chico Science ajudou a fundar no bairro popular de Olinda, na divisa com Recife. Essa escolha reforça a conexão profunda com as raízes do Manguebeat e o legado de seu principal idealizador. O som potente da bateria buscará reforçar a identificação cultural entre aqueles que habitam os mangues de Recife e as margens sociais da Baixada Fluminense, ecoando a letra do samba-enredo: “Eu também sou caranguejo à beira do igarapé / Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré.” A letra, uma composição de Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins, sintetiza a mensagem de trabalho, resiliência e identidade que o enredo propõe.

O carnaval do rio de janeiro e os próximos desfiles

A Acadêmicos do Grande Rio será a penúltima escola a desfilar na terça-feira (17/2), o último dia de desfiles do Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro, prometendo encerrar a folia com chave de ouro. A noite será recheada de emoções e narrativas diversas, com outras grandes escolas apresentando seus enredos marcantes.

Enredos do grupo especial 2026: um panorama

A temporada de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro apresenta um mosaico de temas ricos e variados, que prometem encantar e fazer refletir a plateia e os jurados.

No primeiro dia – domingo (15/2):
Acadêmicos de Niterói trará “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, homenageando uma figura central da política nacional.
Imperatriz Leopoldinense apresentará “Camaleônico”, um enredo que promete explorar a pluralidade e a capacidade de reinvenção.
Portela mergulhará em “O Mistério do Príncipe do Bará”, trazendo à avenida a riqueza da cultura afro-brasileira.
Estação Primeira de Mangueira exaltará “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”, destacando a cultura amazônica e a resistência negra.

No segundo dia – segunda-feira (16/2):
Mocidade Independente de Padre Miguel homenageará a icônica artista com “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”, celebrando seu legado musical e irreverência.
Beija-Flor de Nilópolis apresentará “Bembé do Mercado”, um tema que promete riqueza visual e sonora, explorando rituais e tradições.
Unidos do Viradouro levará “Pra Cima, Ciça”, celebrando a força e a resiliência de uma figura inspiradora.
Unidos da Tijuca prestará tributo a uma importante figura literária com “Carolina Maria de Jesus”, destacando sua obra e sua vida.

No terceiro dia – terça-feira (17/2):
Paraíso do Tuiuti apresentará “Lonã Ifá Lukumi”, explorando a religiosidade e a ancestralidade africana.
Unidos de Vila Isabel mergulhará em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, um enredo de profunda conexão com a cultura africana e suas manifestações no Brasil.
Acadêmicos do Grande Rio com “A Nação do Mangue”, trazendo a força do Manguebeat.
Acadêmicos do Salgueiro encerrará a noite com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, um tema que promete fantasia, humor e irreverência.

Perspectivas para a noite de desfiles

A Acadêmicos do Grande Rio, ao escolher o Manguebeat como tema, não apenas presta uma homenagem a um dos mais importantes movimentos culturais do Brasil, mas também reafirma seu compromisso com a narrativa de realidades sociais e culturais que muitas vezes são marginalizadas. A união simbólica das lamas de Recife e Duque de Caxias na Sapucaí promete um desfile de grande impacto, que transcende o espetáculo visual e sonoro, para oferecer uma profunda reflexão sobre a criatividade que brota das periferias e a capacidade de transformação social através da arte. Com a fusão de ritmos pernambuanos e a força da bateria caxiense, a Grande Rio almeja não só o bicampeonato, mas também eternizar a “Nação do Mangue” na memória do carnaval carioca e nacional, celebrando a resistência e a inventividade que permeiam a cultura brasileira.

Para não perder nenhum detalhe desta celebração cultural e da disputa pelo título, acompanhe a cobertura completa dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Prepare-se para se emocionar com as histórias, os ritmos e as cores que tomam a Sapucaí.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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