O icônico Desfile das Campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro de 2026, realizado no último sábado (21), transformou a Marquês de Sapucaí em um palco de celebração e, simultaneamente, de intensos questionamentos. As seis escolas de samba mais bem classificadas do Grupo Especial voltaram à avenida para revisitar seus enredos e a paixão de suas comunidades, em uma noite que alternou a alegria contagiante da folia com duras críticas direcionadas ao corpo de jurados responsável pela apuração oficial. Enquanto a grande campeã, Unidos do Viradouro, encerrava a madrugada com o merecido reconhecimento, as agremiações que a precederam aproveitaram a ocasião para manifestar seu descontentamento com as avaliações que, em sua visão, as afastaram do cobiçado título. A chuva que caía sobre o Rio não diminuiu o fervor, mas acentuou a atmosfera de reflexão sobre os critérios e a justiça do julgamento carnavalesco.
O desfile das campeãs sob o olhar crítico
Mangueira abre a noite em meio a questionamentos sobre a avaliação
A Estação Primeira de Mangueira, sexta colocada no Grupo Especial, teve a honra de abrir o Desfile das Campeãs, revisitando sua apresentação sob uma chuva fina que caía sobre a Marquês de Sapucaí. Apesar do temporal que havia atingido a cidade horas antes, o entusiasmo da comunidade verde e rosa permaneceu inabalável, ecoando a força de seu enredo. Contudo, a apresentação da escola foi permeada por um claro descontentamento com as notas dos jurados. Cartazes espalhados pela agremiação, como “A Estação Primeira de Mangueira manifesta todo o apoio ao nosso casal furacão. Mangueira em defesa da dança ancestral”, evidenciavam a insatisfação com as penalidades sofridas.
A escola acumulou perdas significativas de décimos em quesitos cruciais. Foram 0,2 ponto subtraído em Comissão de Frente, coreografada por Karina Dias e Lucas Maciel; outros 0,2 ponto no quesito Mestre-sala e Porta-bandeira, com o desempenho de Matheus Olivério e Cyntia Santos; e mais 0,2 em Enredo e 0,2 em Samba-enredo. A soma dessas deduções foi decisiva para que a Mangueira ficasse fora das primeiras posições. O vice-presidente da agremiação, Moacyr Barreto, expressou sua indignação com a avaliação, afirmando que a escola entregou um belíssimo enredo que, infelizmente, não foi compreendido por alguns jurados. Barreto foi enfático ao criticar a nota do casal de mestre-sala e porta-bandeira, questionando a qualificação de uma “turismóloga” para avaliar a “força” da apresentação de uma dança ancestral. Ele também rebateu a crítica de que a bateria teria faltado uma “bossa mais elaborada”, defendendo a complexidade e a originalidade de sua bateria, que desafiava outras a replicarem. A Mangueira prometeu um carnaval ainda mais impactante para 2027, sinalizando que a paixão e o aprimoramento são constantes em sua trajetória.
Imperatriz Leopoldinense e a visão para o futuro
Entre a celebração do talento e a necessidade de ajustes
A Imperatriz Leopoldinense foi a segunda escola a desfilar na noite festiva, apresentando novamente seu enredo “Camaleônico”, que celebrou a trajetória de Ney Matogrosso, de 84 anos. Apesar da performance vibrante e do carisma de seu protagonista, a agremiação de Ramos ficou em quinto lugar na classificação geral. O Desfile das Campeãs foi um momento para a escola não apenas celebrar sua posição entre as melhores, mas também para refletir sobre os próximos passos. A Imperatriz aproveitou o ensejo para anunciar a renovação de seu intérprete, Pitty de Menezes, e do mestre Lolo, nomes importantes para a continuidade do projeto.
Pitty de Menezes, em declaração, reconheceu a importância de estar entre as campeãs, mas não escondeu o desejo pela vitória. Ele enfatizou que “é hora de acertar o que precisa ser acertado” e que a presidente da escola, Cátia Drumond, já estava engajada em identificar e corrigir os pontos fracos para o Carnaval de 2027. O carnavalesco Leandro Vieira, que conquistou o título na Série Ouro com a União de Maricá neste mesmo ano, revelou estar em uma encruzilhada profissional. Ele afirmou que só decidiria seu futuro após o encerramento completo do carnaval, sem pressa para definir se permaneceria na Imperatriz ou migraria para a União de Maricá, ou ainda se dedicaria a ambos os projetos. Sua postura sublinha a complexidade das negociações nos bastidores do carnaval pós-apuração. A cantora Iza, rainha de bateria da Imperatriz, demonstrou sua lealdade à escola, afirmando que “o que a minha escola quiser, eu quero também”, indicando sua disposição em continuar.
Salgueiro, a garra e o questionamento das notas
Uma performance considerada campeã e as divergências com o júri
Já na madrugada de domingo, a Acadêmicos do Salgueiro foi a terceira agremiação a cruzar a Marquês de Sapucaí. Com sua homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães no enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, a vermelho e branco conquistou o quarto lugar, um resultado que, para muitos, ficou aquém do potencial apresentado. Guilherme Oliveira, um dos mestres de bateria do Salgueiro, expressou sua satisfação com a posição, mas ressaltou a ambição da escola pelo primeiro lugar. Ele declarou que o Salgueiro brigou pelo título até o final, considerando seu desfile uma performance de campeão, independentemente do resultado final da Viradouro. Oliveira também destacou a força da comunidade e a qualidade do trabalho desenvolvido, que superou as expectativas daqueles que, antes do carnaval, previam uma classificação muito inferior para a escola.
As críticas aos jurados, no entanto, também foram veementes por parte da diretoria do Salgueiro. André Vaz, um dos líderes da escola, questionou as notas atribuídas, especialmente ao samba-enredo. Ele argumentou que o Salgueiro fez um desfile digno de disputar o título, chegando a estar a um décimo da Viradouro até o último quesito, e não compreendia por que o samba mais cantado na Sapucaí foi penalizado. Vaz também apontou inconsistências na avaliação do quesito alegoria: “Se ele viu que a gente errou, teve escola que errou e que não foi punida. É isso que a gente quer: se errou pune. Agora, o que queremos é que quem erre seja punido. Não apenas o Salgueiro.” Apesar das ressalvas, a escola celebrou sua colocação e o “desfile maravilhoso” que, para sua comunidade, representou a garra e a excelência salgueirense.
A consagração das demais escolas e a festa da Unidos do Viradouro
Após as apresentações marcadas por questionamentos e a renovação de esperanças, o Desfile das Campeãs continuou a noite com as escolas que completavam o seleto grupo das seis melhores do Grupo Especial. A Grande Rio e a Unidos de Vila Isabel, que conquistaram as posições de terceiro e segundo lugar, respectivamente, também retornaram à Sapucaí para reviver a emoção de seus desfiles e receber o aplauso do público. Suas passagens, embora não detalhadas por críticas no contexto presente, representaram a culminância de meses de trabalho árduo, criatividade e dedicação de milhares de componentes.
O ápice da noite, contudo, ficou reservado para a Unidos do Viradouro. A grande campeã do Carnaval de 2026 teve a honra de encerrar o Desfile das Campeãs, confirmando sua soberania na avenida. Com uma apresentação impecável e um enredo cativante, a escola de Niterói celebrou seu merecido título, transformando a Sapucaí em um mar de alegria e consagração. A passagem da Viradouro, repleta de confetes e aplausos, serviu como um lembrete do que o carnaval tem de mais grandioso: a capacidade de encantar, emocionar e coroar o esforço coletivo. A noite, portanto, foi um mosaico de emoções, misturando o orgulho das performances, a contundência das críticas e a euforia da vitória.
O legado e o futuro do carnaval carioca
O Desfile das Campeãs do Carnaval de 2026, com sua mistura de celebração e controvérsia, sublinha a paixão e a intensidade que permeiam o universo das escolas de samba. Mais do que um mero espetáculo, o carnaval carioca é um ecossistema vibrante, onde a arte, a cultura e a emoção se encontram. As críticas aos jurados, longe de diminuírem o brilho da festa, reforçam a seriedade com que as agremiações encaram a competição e o desejo por um julgamento cada vez mais justo e transparente.
A noite na Sapucaí não foi apenas um replay dos desfiles; foi um momento de reafirmação da identidade de cada escola, de seu compromisso com a arte e sua comunidade. As promessas de melhorias, as renovações de contratos e as reflexões sobre o futuro já apontam para o próximo ciclo carnavalesco, garantindo que a magia e a disputa continuarão a encantar o público e a mover corações. O legado deste desfile reside na capacidade de, mesmo diante das adversidades e dos julgamentos, manter acesa a chama da folia e a busca incessante pela perfeição na maior festa popular do Brasil.
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Fonte: https://g1.globo.com