O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, zona sul do Rio de Janeiro, sedia até 22 de abril a exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi”, marcando um momento inédito na cena cultural carioca. Esta é a primeira mostra individual de um artista transmasculino não-binário no espaço e a primeira de Caru Brandi fora de sua cidade natal, Porto Alegre. O trabalho do artista gaúcho busca, de forma lúdica e crítica, dar visibilidade e debater a cultura trans, um universo de experiências e saberes muitas vezes invisibilizados. A mostra é um passo significativo para a representatividade e para a abertura de diálogos importantes sobre identidade e arte popular no Brasil.
Uma conquista histórica para a visibilidade trans
A importância da representação no Centro de Folclore
A exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” não é apenas um evento artístico; ela representa um marco fundamental para a comunidade trans no cenário cultural brasileiro. Caru Brandi, o artista transmasculino não-binário por trás da mostra, expressou grande satisfação com o que descreve como uma “abertura de caminhos”. Para ele, ser a primeira pessoa trans a expor individualmente no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular é de extrema relevância, simbolizando uma conquista coletiva. “Acho muito significativo, enquanto conquista da comunidade trans. Espero, inclusive, que isso se torne uma política não só do Centro de Folclore, mas de outras instituições aqui do Rio de Janeiro”, afirmou.
A escolha do CNFCP em abrir suas portas para essa perspectiva artística é elogiada pelo artista, que vê no gesto um reconhecimento dos “saberes trans” como parte integrante e valiosa do patrimônio cultural. Essa iniciativa alinha-se a um movimento mais amplo de inclusão e diversidade no setor. Rafael Barros, diretor do CNFCP, sublinhou a singularidade e expressividade do trabalho de Caru, que, através da pintura e da cerâmica, “tensiona, esgarça, transborda os limites e os contornos do conceito de arte e de cultura popular”. A exposição, segundo ele, tem provocado o próprio centro a refletir sobre novas perspectivas de trabalho e sobre o que constitui a arte e o artista popular na contemporaneidade, promovendo uma compreensão mais profunda do “multiverso trans” como universos extremamente populares.
A trajetória artística e pessoal de Caru Brandi
Da tatuagem à cerâmica: uma evolução guiada pela transição
A jornada artística de Caru Brandi é intrinsecamente ligada à sua própria transição de gênero. No início de sua carreira, ele já explorava a arte através da tatuagem, desenvolvendo desenhos com uma abordagem mais realista. Contudo, em 2018, ao iniciar seu processo de transição e se conectar com pessoas transmasculinas e não-binárias, sua produção criativa passou por uma mudança radical. “Saio de uma coisa mais realista que eu fazia antes, para uma coisa bem mais ficcional. Aí começa meu processo artístico, junto com minha transição de gênero”, revelou Caru, descrevendo uma virada para narrativas mais imaginativas e subjetivas em suas obras.
Apesar de ter concluído a faculdade de Direito em 2021, Caru Brandi percebeu que seu verdadeiro caminho profissional estava na arte, identificando-se plenamente com a transmasculinidade que expressava em suas criações. A pintura e o desenho tornaram-se para ele uma forma de encontrar e se conectar com essa comunidade, um processo que exigiu coragem e autoconhecimento. Desde 2024, ele se dedica integralmente à sua formação artística, cursando Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atuando como arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. A exposição no Rio de Janeiro inclui obras de seu acervo e peças criadas especificamente para a Sala do Artista Popular, todas em cerâmica e pintura, que abordam a transição de gênero de maneira poética e crítica. As obras estão disponíveis para venda, e a entrada é gratuita.
Diálogo e performance: expandindo o universo da exposição
Oficina, ballroom e a coletividade trans
A inauguração da exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” foi precedida por uma série de atividades que amplificaram sua proposta de diálogo e visibilidade. Na quinta-feira que antecedeu a abertura oficial, o público teve a oportunidade de participar da oficina “Imaginários do barro”, conduzida pelo próprio Caru, que ofereceu uma vivência prática na escultura em cerâmica. A abertura contou ainda com uma vibrante performance dos artistas Maru e Kayodê Andrade, que mergulharam na potência da cultura ballroom. Nascida nos anos 1970 entre a população LGBTQIA+, negra e latina dos Estados Unidos, a ballroom é uma forma de resistência que se manifesta através de intervenções artísticas, desfiles e dança.
Maru, artista transmasculino não-binário, se destaca como modelo, atleta e multiartista/performer. Kayodê Andrade, de 25 anos, também transmasculino, é um multifacetado modelo, ator, poeta, dublador e produtor cultural, conhecido por seu ativismo na comunidade LGBTQIAPN+ e por ser fundador do Coletivo TransMaromba, focado na saúde mental e física de transmasculinos. Caru Brandi enfatizou a importância da coletividade ao trazer Maru e Kayodê para a exposição. “Trazer os meninos da ballroom para a exposição foi muito importante, porque foi uma forma de colocar outras pessoas junto comigo neste espaço. São processos que eu vou vivendo dentro de uma comunidade trans, me baseio nas minhas vivências, mas elas não são individuais. Falam de coletividade”, ressaltou o artista.
Ele também apontou para a invisibilidade das experiências trans na sociedade. “Muita gente não sabe que pessoas como eu existem, que homens trans existem, que pessoas transmasculinas existem e em diversas formas. Não é de um único jeito que essa existência vai estar”. Nesse contexto, a exposição de Caru Brandi assume um papel educacional crucial, apresentando ao público a diversidade da comunidade trans. O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, por sua vez, complementa essa perspectiva ao esclarecer que a transmasculinidade refere-se a pessoas designadas como femininas ao nascer que se reconhecem como pertencentes ao gênero masculino, sem necessariamente se identificarem como homens. A não-binaridade, por sua vez, indica o não pertencimento ao binário de gênero homem ou mulher.
Perspectivas institucionais e o futuro do patrimônio
O olhar acadêmico e o Iphan
A exposição de Caru Brandi é acompanhada por uma pesquisa aprofundada e um texto de catálogo elaborado pelo antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva. Patrick visitou o ateliê do artista em Porto Alegre, um espaço conquistado após o projeto colaborativo “Além-mundos: memórias do (in)imaginário2” desenvolvido com outros artistas trans na Casa Baka. Para o antropólogo, a mostra é um marco significativo para o programa Sala do Artista Popular ao apresentar a produção artística de uma pessoa trans em uma exposição individual. “Ao retratar esses seres que desafiam dicotomias estabelecidas, do que é humano, do que é a natureza, o que é homem, o que é mulher, a exposição abraça dicotomias, no caso da arte”, afirmou Patrick em texto divulgado pelo centro.
Ele ainda destacou o esforço do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em pensar os patrimônios de segmentos diversos da sociedade brasileira. Essa iniciativa se concretizou com a criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+, instituído pela Portaria do Iphan nº 260 de 27 de junho de 2025. O diretor do CNFCP, Rafael Barros, complementou essa visão ao salientar que o trabalho de Caru, com sua expressividade em pintura e cerâmica, transcende as definições convencionais de arte e cultura popular. Segundo Barros, essa abertura tem permitido ao espaço cultural explorar novos horizontes e perspectivas, levantando questões essenciais: “O que é arte popular hoje?”, “Qual o lugar da arte popular e qual o lugar do artista popular?”. Ele enfatizou a dimensão “extremamente maravilhosa” de compreender o “universo trans, o multiverso trans, os diversos universos que fazem parte das existências não-binárias, das existências queers como universos extremamente populares”.
A exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” se consolida como um evento de profundo impacto cultural e social. Ela não só celebra a arte inovadora de um artista transmasculino não-binário, mas também impulsiona o diálogo sobre a representatividade e a inclusão da cultura trans no cenário artístico nacional. Ao questionar e expandir os limites do que é considerado arte popular, a mostra contribui para um entendimento mais amplo e diversificado do patrimônio cultural brasileiro, reafirmando a importância das vivências trans como parte fundamental da tapeçaria social. A iniciativa do CNFCP e do Iphan demonstra um compromisso crescente com a valorização de todas as vozes e expressões artísticas, pavimentando o caminho para um futuro mais equitativo e representativo.
Não perca a oportunidade de explorar “Fabulações transviadas de Caru Brandi” no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete. A entrada é gratuita e as visitas acontecem de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e nos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h, até o dia 22 de abril.