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Artistas periféricos do auto de Natal inspiram transformação em comunidades

© HANS VON MANTEUFFEL/Divulgação

No vibrante cenário cultural do Recife, artistas periféricos têm se destacado não apenas por suas performances no tradicional Auto de Natal, o Baile do Menino Deus, mas também pelo profundo impacto social que geram em suas comunidades. Longe dos holofotes centrais, esses talentos emergem de realidades desafiadoras, transformando adversidades em oportunidades e a arte em ferramenta de inclusão e desenvolvimento. Suas histórias são testemunhos da potência da cultura como motor de mudança, inspirando jovens e fortalecendo laços sociais. Através de projetos inovadores e do exemplo diário, eles demonstram como a paixão pela arte pode transcender o palco, pavimentando caminhos para um futuro mais promissor e engajado, enraizado nas tradições e na identidade local.

Da reciclagem à percussão: o legado de Lucas dos Prazeres

A trajetória de Bob Brown e o Centro Maria da Conceição

A história do percussionista Bob Brown, cujo nome de batismo é George José Mendonça, ilustra a capacidade transformadora da arte nas periferias. Aos 10 anos, George, morador do Alto do Morro da Conceição, no Recife, já revirava o lixo em busca de materiais recicláveis para vender e ajudar nas despesas de casa. Anos mais tarde, essa realidade de sons e texturas foi ressignificada. As garrafas de plástico, caixas de madeira e latas vazias, outrora objetos de subsistência, tornaram-se instrumentos musicais em suas mãos. Essa virada em sua vida foi impulsionada pela inspiração e orientação de seu vizinho, o músico Lucas dos Prazeres, que o apresentou ao Centro Maria da Conceição, um projeto comunitário que transformaria seu destino.

Lucas dos Prazeres resgatou George de sua rotina de catador, convidando-o para um projeto que moldaria seus sentidos. O Centro Maria da Conceição, hoje com mais de quatro décadas de existência, foi fundado em um terreno doado pela avó de Lucas. George relembra com carinho a didática de seu mentor: “Lucas segurava a mão da gente. Pegava as garrafas e enchia de areia e de pedrinhas. Depois, vedava, pintava e fazia aquilo virar um instrumento”. Em 2025, a exemplo dos anos anteriores, Bob Brown estará no Marco Zero da cidade para prestigiar seu ídolo Lucas, que se apresentará pela 22ª vez no Baile do Menino Deus, um auto de Natal encenado com personagens tipicamente brasileiros, demonstrando a profunda admiração e o laço que a música construiu entre eles.

Projetos que formam cidadãos: Negras Raízes e Orquestra dos Prazeres

Lucas dos Prazeres, aos 41 anos, além de sua atuação como anjo no espetáculo natalino – personagem que “traz o guiso nos pés e vem flutuando na batida do cavalo marinho”, como ele descreve –, é um pilar em sua comunidade. Filho de artistas que se conheceram no Balé Popular do Recife, Lucas já sapateava no coco de roda aos três anos. Para ele, as crianças inspiradas pelas tradições artísticas recebem uma formação em cidadania, senso crítico e uma perspectiva única sobre o mundo. Essa visão, o artista enfatiza, é o diferencial de quem nasce em um território quilombola, como o Quilombo dos Prazeres, no Morro da Conceição. As vivências no Baile do Menino Deus remetem às brincadeiras dos terreiros, onde a linguagem do cavalo marinho e do coco de roda é forte e autêntica.

Fora dos palcos, Lucas coordena os projetos comunitários Ponto de Cultura Negras Raízes e Orquestra dos Prazeres, que, em suas palavras, não visam formar apenas músicos, mas cidadãos engajados. No ponto cultural, Lucas introduz crianças e adolescentes às “primeiras ousadias” da percussão, enquanto na orquestra ele organiza apresentações. A orquestra surgiu da percepção de que as escolas de música tradicionais não ensinavam a diversidade musical do Nordeste. Mais de 300 jovens já passaram por essa iniciativa, que, segundo Lucas, tem auxiliado músicos a se inserirem no mercado de trabalho, como é o caso de Bob Brown, hoje com a agenda lotada. Bob, aliás, já tocou com grandes nomes como Naná Vasconcelos, Elba Ramalho, Lenine e Lula Queiroga. A visibilidade dos projetos sociais de Lucas foi impulsionada, inclusive, por Naná Vasconcelos, que frequentou o quilombo e convidou Lucas para trabalhar junto por 12 anos, abrindo-lhe as portas do mundo. A doação do terreno de sua avó foi crucial para a escola comunitária, que adota uma metodologia de “aprendizagem pela prática cultural”, mantendo Lucas enraizado em sua comunidade.

Hip-hop e consciência ambiental: a arte de Okado do Canal

Lado Beco: a dança que transforma e une a comunidade

Outro artista pernambucano que brilha nos palcos e permanece ligado às suas raízes é Ellan Barreto, de 32 anos, conhecido como Okado do Canal. Nascido e criado na Favela do Canal, no bairro do Arruda, Okado criou o projeto Lado Beco, que oferece atividades de hip-hop em sua comunidade. O breakdance, em particular, se tornou uma paixão para a estudante Wilyane, de 11 anos. Seu pai, Wiliams Vicente, de 40 anos, manobrista no Recife, expressa orgulho em ver a filha envolvida com as artes. “Ela ama a música e eu acho que pode fazer muito bem para ela”, afirma. A família não se importa de acordar cedo aos sábados para levá-la às aulas na casa de Okado.

Wilyane relata sentir-se em família com suas colegas nas aulas, elogiando a diversão proporcionada por Okado. Ela mal pode esperar para vê-lo no palco pela primeira vez neste ano, já dominando passos como o “freeze” e o “top rock” e participando de batalhas de break com crianças de outras regiões periféricas. “Se eu estou feliz, meu pai e o Okado ficam também”, diz. Okado destaca o espírito de fraternidade em sua comunidade, onde é comum a troca de visitas e encontros nas ruas, especialmente durante as festas de fim de ano. Os vizinhos se organizam para prestigiar o artista no auto de Natal, em gratidão pelo impacto positivo do projeto Lado Beco.

Sustentabilidade e educação: figurinos que inspiram

Além da música e da dança, Okado do Canal tem se dedicado a promover a consciência ambiental entre os moradores de sua vizinhança, abordando o descarte e o aproveitamento de materiais. Um exemplo prático dessa iniciativa é a montagem de um espetáculo com os alunos de break, cujo figurino está sendo confeccionado a partir de materiais recicláveis, trazidos pelas próprias crianças. Essa abordagem tem gerado resultados, como o aumento do interesse de Wilyane nas aulas de arte na escola e sua maior atenção ao cenário em que vive. Okado vê nas crianças uma fonte de inspiração, relembrando sua própria infância e o desejo de ter uma academia de dança para lecionar, o que culminou na criação do Centro Cultural do Beco.

A trajetória de Okado também foi moldada por outros projetos comunitários, como o Grupo Pé no Chão e o Instituto Vida. Foi por meio desses caminhos que ele participou do coletivo audiovisual Favela News, documentando o cotidiano de sua comunidade. Desde 2018, Okado expandiu suas atividades, oferecendo oficinas de roteiro, câmera, edição, cenografia, figurino e maquiagem. Em palestras que realiza para compartilhar sua jornada de menino da favela a músico e dançarino profissional, ele enfatiza a importância de honrar os ancestrais e evitar o apagamento da história. “Muitas vezes, as pessoas não sabem o nome das suas avós e das suas bisavós. Não pode. Onde eu vou levo a memória delas comigo”, declara, sublinhando a conexão vital entre passado e presente.

Arte além do palco: palhaçaria e educação musical

O riso que cura: Arilson Lopes e os Doutores da Alegria

A inspiração familiar também move o ator Arilson Lopes, de 51 anos, que interpreta o personagem Mateus no auto de Natal. No palco, Mateus busca o menino Jesus, enquanto os pais do ator viajam de Serra Talhada ao Recife para prestigiá-lo. Fora dos holofotes natalinos, Lopes realiza um trabalho menos visível, mas igualmente impactante: ele é um dos palhaços do grupo Doutores da Alegria em Pernambuco. Tanto em seu papel de ator quanto de palhaço, Arilson se emociona ao ver as crianças cantando junto. “O Natal, para mim agora, é sinônimo de Baile do Menino Deus. Há 22 anos, eu não passo Natal com a minha família”, revela, demonstrando sua dedicação.

Arilson Lopes é o coordenador artístico dos Doutores da Alegria, atuando em cinco hospitais públicos. As duplas de palhaços, autodenominadas “besteirologistas”, estão sempre prontas para “curar” males como “riso frouxo”, “pulga atrás da orelha” e “caspa no joelho”. Lopes trabalhou como palhaço em dupla até 2015, quando passou a dirigir as atividades que levam ânimo às crianças hospitalizadas e suas famílias. Ele explica que o palhaço no hospital permite “quebrar a quarta parede do teatro”, estabelecendo uma relação direta e autêntica com o público. O trabalho exige atenção constante para perceber as diferentes enfermidades e adaptar as brincadeiras, pois é preciso estar com a “antena ligada” para se comunicar com crianças diversas. Arilson ressalta a complexidade e a preparação emocional que o trabalho demanda, destacando a felicidade de toda a equipe quando uma criança retorna para casa.

Soltando a voz e inspirando o futuro: Sue Araújo na Mustardinha

A felicidade artística também permeia o cotidiano da cantora Sue Araújo, solista do Baile do Menino Deus há 12 anos. Além de seu trabalho no palco, Sue desenvolve um projeto em uma escola pública na comunidade da Mustardinha, outra área periférica do Recife. Nascida em Jaboatão Velho, em uma comunidade também desassistida, Sue enxerga em seus alunos o próprio passado e busca tornar o quinto ano do ensino fundamental mais interessante por meio da música durante as aulas.

Tendo começado sua carreira no gospel e hoje mergulhando na cultura regional, Sue Araújo é um exemplo de superação. Ela foi a primeira mulher em sua família a obter um diploma universitário, e esse desejo de ascensão e realização é o que ela projeta para seus estudantes. “É o que eu quero para os meus alunos também. Que eles brilhem”, afirma a cantora, conectando sua própria jornada de sucesso à missão de inspirar e capacitar as novas gerações da periferia a alcançarem seus sonhos através da educação e da arte.

O impacto transformador da arte periférica

As histórias de Bob Brown, Lucas dos Prazeres, Okado do Canal, Arilson Lopes e Sue Araújo convergem em um ponto fundamental: a arte como força motriz para a transformação social. Originários de comunidades periféricas, esses artistas utilizam seus talentos para ir além do entretenimento, forjando cidadãos conscientes, promovendo a inclusão, incentivando a sustentabilidade e levando esperança a quem mais precisa. Seus projetos demonstram que a cultura, em suas diversas formas, é uma ferramenta poderosa para construir pontes, preservar identidades e oferecer novas perspectivas, consolidando um legado que transcende o espetáculo e enriquece o tecido social das comunidades.

Para apoiar e conhecer mais sobre o trabalho inspirador desses artistas e projetos que transformam vidas através da arte nas comunidades, procure as redes sociais e os canais de divulgação do Baile do Menino Deus, do Ponto de Cultura Negras Raízes, da Orquestra dos Prazeres, do Lado Beco e dos Doutores da Alegria. Sua participação e reconhecimento são fundamentais para que essa onda de transformação continue a florescer.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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