O Acordo de Paris, o principal tratado internacional concebido para enfrentar a crise climática global, atinge uma década de existência, marcando um período de progresso inegável, mas também de desafios crescentes. Adotado na 21ª Conferência das Partes (COP21) em 2015, este pacto é amplamente reconhecido como um marco histórico na cooperação ambiental. No entanto, mesmo após dez anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) adverte que o mundo permanece significativamente distante de cumprir sua meta central: limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius (ºC) acima dos níveis pré-industriais. Este limiar é considerado crucial por cientistas para evitar os impactos mais severos e potencialmente irreversíveis das mudanças climáticas, que já se manifestam em diversas regiões do planeta. A urgência de ações mais ambiciosas e um compromisso renovado se torna evidente à medida que o planeta sente os efeitos do aquecimento.
Um marco global sob pressão
A criação do Acordo de Paris representou um divisor de águas nas relações internacionais sobre o clima. Pela primeira vez, 195 Estados Partes concordaram com um compromisso global e vinculativo para conter o avanço da crise climática. O tratado, que entrou em vigor em 2016, estabeleceu um mecanismo baseado em ciclos de cinco anos, nos quais cada nação apresenta ou atualiza suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Esses planos detalham estratégias para a redução de emissões de gases de efeito estufa, medidas de adaptação aos impactos climáticos e diretrizes de longo prazo para guiar economias inteiras rumo à neutralidade de carbono.
Apesar de sua importância e do empenho diplomático, o ritmo atual das ações é insuficiente. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) salienta que as emissões globais precisam ser reduzidas em 43% até 2030 para que a meta de 1,5°C permaneça alcançável. Este cenário coloca os países sob intensa pressão para fortalecer suas NDCs e acelerar a transição para economias de baixo carbono, a fim de evitar as consequências mais catastróficas projetadas para o futuro próximo.
A trajetória do aquecimento global
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reconhece que o Acordo de Paris tem funcionado como uma barreira contra cenários ainda piores. Segundo Guterres, o planeta não está mais em rota para um aquecimento superior a 4°C — um desfecho que seria insustentável e representaria uma catástrofe humanitária e ecológica. Em vez disso, a trajetória global atual está mais próxima de 2,5°C. Essa redução, de 4°C para 2,5°C, demonstra a eficácia do tratado em alterar a projeção mais sombria, mas ainda está muito acima do limite seguro. Guterres enfatiza a urgência, afirmando que “os últimos dez anos foram os mais quentes já registrados. Estamos testemunhando tragédias humanas, destruição ecológica e crises econômicas em tempo real, com a devastação aumentando à medida que as temperaturas continuam subindo”.
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, reiterou que o tratado foi fundamental para “destravar” a ação climática global em um momento de estagnação. Há uma década, a ação climática estava “emperrada, com muitos obstáculos”, e o acordo “possibilitou dar uma nova dinâmica ao combate à mudança do clima”. Ele reforça que, embora a trajetória tenha sido alterada, “ainda precisamos evitar ultrapassar 1,5°C. Então, há muito a ser feito”.
Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) durante a criação do Acordo de Paris, expressou uma visão pragmática e, em parte, pessimista sobre o alcance das metas mais ambiciosas. Ela argumenta que, mesmo com o tratado, “já está muito claro que não podemos resolver a mudança climática – é tarde demais”. No entanto, ela complementa que não é preciso se condenar “aos piores impactos da mudança climática”, defendendo que a chave agora é acelerar o ritmo de implementação de redução de emissões e regeneração de ecossistemas naturais para as gerações futuras.
A estrutura e o futuro da ação climática
O Acordo de Paris é sustentado por pilares fundamentais que visam garantir a cooperação e a responsabilidade global. A cooperação internacional é um pilar central, especialmente no apoio a países em desenvolvimento, que são frequentemente mais vulneráveis aos impactos climáticos e historicamente responsáveis por uma parcela menor das emissões acumuladas. O tratado reconhece a responsabilidade dos países desenvolvidos em liderar o financiamento climático, promovendo a transferência de tecnologia e capacitação para as nações em desenvolvimento.
Para monitorar o progresso e garantir a responsabilização, o acordo estabeleceu o Quadro de Transparência Reforçado. Desde 2024, todas as partes são obrigadas a reportar detalhadamente suas ações, avanços e o apoio prestado e recebido. Esses dados alimentam o balanço global, um instrumento crucial que avalia o progresso coletivo em direção às metas de longo prazo do acordo, identificando lacunas e áreas que exigem maior empenho.
O apelo por aceleração e financiamento
Diante da urgência, António Guterres sublinhou que 2026 deve marcar o início de uma “nova década de implementação”. Ele expressou esperança na união demonstrada pelos países durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, onde houve reconhecimento unânime da importância de limitar o aquecimento global. “Essa união me dá esperança”, disse Guterres, “podemos controlar a escala e a duração desse aumento repentino das temperaturas e reduzi-las novamente se tomarmos medidas sérias agora”.
A visão de Guterres inclui a necessidade de um “plano de aceleração” que preencha a lacuna entre ambição, adaptação e financiamento. Este plano é vital para alinhar as promessas com a realidade da ação climática e garantir que os recursos necessários estejam disponíveis para as nações que mais precisam. Figueres, por sua vez, reforça a urgência da implementação responsável, não apenas na redução de emissões, mas também na regeneração dos ecossistemas naturais, visando garantir um futuro habitável para as próximas gerações. A combinação de ambição política, cooperação tecnológica e financiamento robusto é a tríade essencial para o sucesso do Acordo de Paris nos próximos anos.
O futuro da ação climática: desafios e esperança
Os dez anos do Acordo de Paris revelam um cenário complexo, onde o progresso significativo na mudança da trajetória de aquecimento global coexiste com a persistência de metas cruciais ainda não alcançadas. O tratado provou ser um alicerce fundamental para a governança climática global, mas a urgência das evidências científicas e a crescente frequência de eventos climáticos extremos exigem uma intensificação drástica dos esforços. A janela para limitar o aquecimento a 1,5°C está se fechando rapidamente, dependendo de ações decisivas e colaborativas nos próximos anos. A capacidade de transcender os desafios atuais e transformar ambições em realidade será o verdadeiro legado do Acordo de Paris.
Para aprofundar seu entendimento sobre as ações climáticas globais e o futuro do planeta, acompanhe as próximas conferências e relatórios da Organização das Nações Unidas.