Aos 26 anos, formada em Recursos Humanos e cursando Serviço Social, Mayara Samora simboliza a luta por oportunidades que muitas mulheres com deficiência enfrentam diariamente. Desempregada há cinco meses, ela atribui sua situação à falta de informação da sociedade, geradora de preconceito e exclusão. Sua experiência não é isolada, mas reflete um panorama preocupante em Campinas (SP), onde dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam uma profunda desigualdade na educação e no mercado de trabalho para essa parcela da população. “Nós, mulheres com deficiência, também merecemos espaço”, declara Mayara, ecoando a voz de milhares que buscam reconhecimento, acessibilidade e, acima de tudo, um lugar de direito na sociedade. A complexidade do desafio exige um olhar atento para as múltiplas barreiras enfrentadas, desde a educação básica até a inserção profissional.
Barreiras no mercado de trabalho e o peso do preconceito
Mesmo com qualificação e formação superior, a trajetória de Mayara Samora no mercado de trabalho tem sido marcada por obstáculos que, segundo ela, resultam da incompreensão e da falta de inclusão. Após sua demissão, cujo motivo não foi claramente justificado, a jovem manifesta a convicção de que houve uma “falta de paciência, de inclusão”. Para Mayara, a solução para reverter essa realidade passa necessariamente pela informação. “A sociedade precisa ter informações, porque a falta dela gera o preconceito. E eu já passei por isso”, desabafa, descrevendo o “olhar de piedade” que muitas vezes recebe.
Experiências de Mayara e Valdireny
A história de Valdireny de Mira da Silva, artesã de 52 anos que convive com uma doença rara conhecida como “ossos de vidro”, corrobora a persistência das dificuldades. Valdireny relata que sua jornada educacional foi interrompida na infância devido à carência de acessibilidade e às frequentes fraturas. Conseguiu concluir o ensino fundamental apenas na Educação de Jovens e Adultos (EJA), uma realidade que ilustra as barreiras estruturais e sociais. “Frequentar a escola era assim, uma semana na escola e uma semana fora”, recorda, evidenciando as consequências de um ambiente não adaptado. Para a especialista em deficiência intelectual Karina Maldonado, a falta de estrutura física nas escolas soma-se ao capacitismo, uma barreira atitudinal que impede o desenvolvimento pleno. “Enquanto a gente olhar para elas como coitadas, elas não vão conseguir fazer um trabalho efetivo”, analisa Maldonado, sublinhando a necessidade de uma mudança de perspectiva que valorize a capacidade e o potencial.
Desigualdade educacional e os dados alarmantes do IBGE
A dimensão do problema é corroborada por dados do Censo 2022 do IBGE, que traçam um quadro preocupante sobre a escolaridade de mulheres com deficiência em Campinas. Dos 34.018 mulheres com 25 anos ou mais que possuem alguma deficiência na cidade, impressionantes 17.454 não completaram o ensino fundamental ou não possuem instrução formal. Este número representa 51,3% do total, revelando uma exclusão educacional em larga escala. A plataforma “Mulheres no Censo 2022”, que reúne essas informações, tem o objetivo de fomentar análises e subsidiar políticas públicas baseadas em evidências.
O cenário em Campinas e região
Além do percentual de mulheres com ensino fundamental incompleto ou sem instrução, os dados do IBGE para Campinas indicam que 4.409 mulheres com deficiência não terminaram o ensino médio, 7.783 completaram o ensino médio ou não finalizaram o ensino superior, e apenas 4.372 concluíram o ensino superior. Em comparação, o percentual de homens com deficiência em Campinas com ensino fundamental incompleto ou sem instrução é de 48,7%, mostrando uma diferença de gênero, ainda que ambos os grupos enfrentem desafios significativos. Este cenário de desigualdade educacional se estende a outros municípios populosos da região, como Sumaré, Indaiatuba, Hortolândia e Americana, onde os percentuais também ultrapassam a marca de 50%.
A pedagoga Gisele Pacheco, fundadora do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e de Baixa Visão, classifica o percentual como “assustador”. Ela destaca que as mulheres com deficiência enfrentam uma dupla discriminação: o capacitismo e o machismo. “As mulheres são consideradas mais vulneráveis na nossa sociedade. Quando se trata de mulheres com deficiência, a vulnerabilidade se torna ainda maior, dependendo do tipo de deficiência”, explica Pacheco, que tem deficiência visual. Ela aponta a superproteção familiar e a falta de conhecimento sobre o potencial produtivo dessas mulheres como fatores que as mantêm à margem. O capacitismo se manifesta na subestimação da capacidade da pessoa com deficiência, enquanto o machismo prega a superioridade masculina, resultando em discriminação e menosprezo contra as mulheres.
Glaucia Marcondes, coordenadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo) da Unicamp, complementa a análise ao citar o “tabu da domesticidade feminina”, um papel historicamente construído que confina a mulher ao ambiente doméstico. “Mesmo em uma condição em que ambos têm deficiências, é muito mais provável que as famílias vejam a condição das meninas como algo muito mais vulnerável e exposta à violência do que os meninos”, argumenta Marcondes, ressaltando a dimensão de gênero na percepção da fragilidade e do medo.
Desafios persistentes na educação e as múltiplas barreiras
A percepção de que “mulher precisa ficar em casa” e se dedicar aos afazeres domésticos é um reflexo cultural que, somado à falta de acessibilidade, contribui para a evasão escolar e para que muitas mulheres com deficiência não busquem ou não consigam concluir seus estudos. Glaucia Marcondes observa que muitas das mulheres que compõem as estatísticas de baixa escolaridade são de gerações mais antigas, com mais de 35 anos. Ela explica que um “olhar mais inclusivo” para as pessoas com deficiência começou a se desenvolver nas últimas duas décadas, principalmente no sistema educacional, com a criação de leis que buscam garantir essa inclusão.
Impacto geracional e a lista de obstáculos
No entanto, antes dessas mudanças, muitas crianças com deficiência eram encaminhadas para instituições especializadas, que nem sempre tinham vagas suficientes ou eram acessíveis a todas as famílias, o que se configurava como um “problema crônico de acessibilidade à educação”. Gisele Pacheco, aos 43 anos, testemunhou essa realidade em primeira mão. Embora tenha contado com o apoio familiar para cursar Pedagogia, a falta de material adaptado era uma constante. “Aí a gente contava com a ajuda de uma rede de apoio permanente, que são os colegas de classe, para ditar o que está na lousa. Contava também com a ajuda do professor para trazer o material de uma forma mais resumida”, relembra.
Pacheco lista uma série de barreiras que ainda dificultam a formação de pessoas com deficiência, independentemente do gênero:
Falta de acessibilidade física: como ausência de rampas e elevadores.
Barreiras arquitetônicas: prédios não adaptados.
Acessibilidade atitudinal: a necessidade de eliminar preconceitos e estereótipos.
Falta de materiais e recursos adaptados.
Falta de preparo de profissionais: professores e diretores não capacitados para lidar com a diversidade.
Esses desafios, segundo ela, impactam diretamente o rendimento e a permanência de alunos no ambiente escolar, sendo as mulheres particularmente afetadas. A desistência escolar, para muitas, reforça o papel doméstico, afastando-as de um futuro profissional e autônomo. “É importante que os nossos governantes comecem a ter um outro olhar em relação a essa realidade. Comecem a pensar um pouco mais nessas pessoas, na vulnerabilidade dessas mulheres com deficiência”, cobra Pacheco, urgindo por políticas públicas mais efetivas e conscientes.
Um futuro mais inclusivo
O panorama revelado pelas histórias de Mayara, Valdireny e os dados do IBGE para Campinas e região destaca a urgência de romper com um ciclo de exclusão que historicamente marginaliza mulheres com deficiência. A luta por educação, autonomia e inserção no mercado de trabalho é uma batalha contra o capacitismo e o machismo, que se entrelaçam para criar uma camada adicional de vulnerabilidade. A eliminação das barreiras físicas, arquitetônicas e, sobretudo, atitudinais, é crucial para que essas mulheres possam exercer plenamente seus direitos e contribuir com seus talentos para a sociedade. A informação e a conscientização são ferramentas poderosas para desconstruir preconceitos e abrir caminho para um futuro onde o “merecemos espaço” de Mayara não seja mais uma reivindicação, mas uma realidade consolidada.
Para entender mais sobre como promover a inclusão e combater o capacitismo, procure por iniciativas e organizações que apoiam pessoas com deficiência e seus direitos. Sua participação pode fazer a diferença na construção de uma sociedade mais justa e acessível.
Fonte: https://g1.globo.com