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Visitantes abandonam Cuba em meio à grave crise energética

G1

Cuba enfrenta uma severa crise energética que tem impactado diretamente o seu já fragilizado setor turístico. A escassez de combustíveis, somada a uma profunda crise econômica, tem levado ao abandono da ilha por visitantes estrangeiros e a uma queda drástica na chegada de voos internacionais. Este cenário agrava a vulnerabilidade social e a escassez de itens básicos como alimentos, medicamentos e combustíveis, fundamentais para o dia a dia da população e para o funcionamento da economia. O turismo, antes um dos pilares econômicos, encolheu cerca de 70% nos últimos seis anos, refletindo as dificuldades enfrentadas pelo país caribenho. A retirada de importantes companhias aéreas do mercado cubano é um claro indicativo da deterioração das condições operacionais e da atratividade turística da nação.

O êxodo turístico e seus impactos econômicos

Companhias aéreas reduzem rotas e a chegada de visitantes cai
O setor de turismo cubano, vital para a economia local, sofre um declínio acentuado, exacerbado pela crescente crise energética. Nos últimos seis anos, a chegada de visitantes estrangeiros à ilha despencou cerca de 70%, um dado alarmante para um país que depende fortemente das divisas geradas por este segmento. Em 2025, por exemplo, apenas 1,8 milhão de turistas pisaram em solo cubano, um número significativamente abaixo do potencial e das expectativas pré-crise. A gravidade da situação é evidenciada pela decisão de importantes companhias aéreas de suspenderem suas operações para Cuba. No dia 29 de março de 2026, a Air France anunciou a paralisação de sua rota, seguindo os passos de outras gigantes como Air Canada e Air Transat, que já haviam retirado seus voos. Essas suspensões não apenas reduzem a capacidade de chegada de turistas, mas também sinalizam uma percepção de instabilidade e dificuldade operacional para as empresas.

Nas ruas da antiga Havana, antes vibrantes com a presença internacional, os turistas são uma visão cada vez mais rara. A emblemática Praça das Armas, outrora um ponto de encontro e admiração, hoje ecoa com um silêncio incomum para o que costumava ser um polo turístico. Corinne e Patrick, um casal francês que visitava a ilha, expressaram a decepção com as mudanças. Eles haviam retornado a Cuba dez anos após uma primeira viagem encantadora, motivados não só pela beleza do lugar, mas também pelo desejo de “apoiar um pouco o povo cubano”, consumindo em restaurantes locais e contribuindo com divisas, contrariando a “doutrina” que desestimula o turismo imposta anteriormente por Donald Trump. No entanto, sua experiência foi profundamente afetada pela escassez de combustível, que resultou no fechamento de muitos hotéis pré-selecionados e até na necessidade de escalas adicionais para reabastecimento de querosene em seu voo de volta a Paris, ilustrando as dificuldades logísticas enfrentadas por quem tenta visitar a ilha.

A face humana da crise e o clamor por divisas

Vendedores e estudantes afetados pela escassez de recursos
A diminuição drástica do turismo tem repercussões imediatas e severas sobre a população cubana, cujas vidas estão intrinsecamente ligadas à economia da ilha. Daniela, uma jovem de 20 anos que trabalha como vendedora em uma loja de souvenirs na capital, personifica o impacto direto da crise. Ela teve que abandonar seus estudos de medicina, um sonho e um caminho para um futuro mais próspero, devido à impossibilidade de sustentar-se e continuar a jornada acadêmica. O salário de Daniela depende diretamente das vendas diárias na loja, que diminuem a cada dia, criando um ciclo vicioso de privação e desespero. “Se não há turismo, não há entrada de dinheiro no país. E se o país não tem divisas, não podemos comprar combustível. O turismo é realmente fundamental para nós”, desabafa Daniela, resumindo a dolorosa realidade de muitos cubanos.

A fala da jovem ressalta a complexa interconexão entre o turismo, a entrada de divisas estrangeiras e a capacidade do país de adquirir bens essenciais no mercado internacional, incluindo o vital combustível. Sem divisas, Cuba fica impedida de importar não só querosene para voos e gasolina para transportes, mas também alimentos, medicamentos e outras matérias-primas cruciais para a sobrevivência e o desenvolvimento. Este cenário cria uma espiral descendente, onde a falta de recursos energéticos afeta a capacidade produtiva e logística, que por sua vez impacta a capacidade de gerar renda e atrair o turismo, fechando o ciclo de vulnerabilidade e escassez que assola a ilha. A dependência do turismo como gerador de moeda forte torna cada declínio no número de visitantes um golpe direto na subsistência de milhares de famílias e na estabilidade social do país.

A geopolítica do petróleo: bloqueio versus apoio russo

A chegada do petroleiro Anatoly Kolodkin e a reação internacional
Em meio à grave crise energética, Cuba busca alternativas para o abastecimento de combustível, em grande parte dificultado pelo contínuo bloqueio econômico imposto por Washington. Nesse contexto de dificuldades, a chegada de um petroleiro russo à ilha surge como um alívio temporário e um ponto de interesse na cena geopolítica. Em 30 de março, o Kremlin expressou sua “satisfação” com a chegada do Anatoly Kolodkin, um navio que avança lentamente pela costa cubana em direção ao porto de Matanzas, transportando 730 mil barris de petróleo bruto. A Rússia, aliada histórica de Cuba, reitera assim seu apoio à nação caribenha, que enfrenta desafios sem precedentes. A entrega desta carga de petróleo é crucial para tentar mitigar a escassez que tem paralisado setores da economia e afetado a vida cotidiana dos cubanos.

A movimentação de Moscou e Havana não passou despercebida por Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu à notícia da chegada do petroleiro com declarações que refletem uma perspectiva de desinteresse e desvalorização da situação cubana. Em 29 de março, Trump afirmou: “Se um país quiser enviar petróleo para Cuba agora, isso não me causa nenhum problema, seja a Rússia ou não”. Ele insistiu que a entrega não teria impacto significativo na condição da ilha, declarando que “Cuba está acabada (…), recebam eles uma carga de petróleo ou não, isso não fará nenhuma diferença”. A posição de Trump sugere uma visão de que a crise em Cuba é tão profunda que mesmo auxílios como esse seriam insuficientes para reverter o cenário de colapso, embora a chegada do combustível represente um respiro estratégico para o governo cubano em sua luta contra a paralisia energética e econômica.

Perspectivas futuras e desafios persistentes
A grave crise energética e o consequente declínio do turismo em Cuba representam um dos maiores desafios para a ilha nas últimas décadas. A interrupção das rotas aéreas de companhias importantes, o abandono de hotéis e a escassez generalizada de bens essenciais, como combustíveis e alimentos, criam um cenário de instabilidade econômica e social que afeta profundamente a população. A dependência crítica do turismo para a geração de divisas estrangeiras expõe a vulnerabilidade do modelo econômico cubano frente a choques externos e sanções prolongadas. Embora a chegada de petroleiros russos possa oferecer um alívio pontual na escassez de combustível, a solução a longo prazo para os problemas energéticos e econômicos de Cuba exige uma abordagem mais abrangente. Será necessário diversificar as fontes de energia, atrair investimentos externos e implementar reformas estruturais que possam revitalizar o setor produtivo e turístico, garantindo um suprimento mais estável de recursos e uma melhor qualidade de vida para seus cidadãos. A resiliência do povo cubano e a capacidade de seu governo em navegar por essas águas turbulentas serão postas à prova diante de um futuro incerto, onde a superação da crise energética é fundamental para qualquer perspectiva de recuperação.

Para acompanhar de perto o desdobramento da crise energética e seus impactos sociais e econômicos em Cuba, e entender como a geopolítica global molda o destino de nações insulares, continue lendo nossas análises aprofundadas sobre o cenário internacional.

Fonte: https://g1.globo.com

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