PUBLICIDADE

Carnaval no DF: coletivos encontram na folia um caminho para o autocuidado e a inclusão

© Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agênci

Em um domingo pré-carnavalesco na vibrante Brasília, o ritmo contagiante do samba ofereceu um alívio e um espaço de celebração para quem, diariamente, lida com a complexidade do cuidado. Carmen Araújo, professora carioca de 59 anos, dançava com um sorriso no rosto e olhos emocionados, simbolizando a busca por momentos de autocuidado de cuidadores em meio a rotinas exaustivas. Há 15 anos, Carmen dedica-se ao pai, que enfrenta a doença de Alzheimer, e encontrou no coletivo Filhas da Mãe uma rede de apoio essencial. Este grupo, que se transforma em bloco carnavalesco durante a folia, exemplifica como o carnaval se tornou um palco para a promoção da saúde mental e física, e um lembrete crucial da importância de cuidar de si para poder cuidar do outro. A folia na capital do país revelou-se, assim, um oásis de respiro e conscientização para diversas causas.

A folia como respiro para quem cuida

O peso da responsabilidade e a busca pela leveza

A história de Carmen Araújo é um retrato fiel da dedicação e dos desafios enfrentados por milhares de pessoas que cuidam de familiares com doenças demenciais. Com 59 anos, ela carrega há uma década e meia a responsabilidade pelo pai, hoje com 89 anos e Alzheimer. Essa dedicação, embora permeada de amor, traz consigo uma carga emocional e física imensa. Para Carmen, a participação no coletivo Filhas da Mãe, fundado em 2019, tornou-se um refúgio vital. “Se a gente não se cuidar, adoecemos também”, alerta ela, em um testemunho que ressoa com a realidade de muitos cuidadores. O amor pelo carnaval, herdado do próprio pai – que, até recentemente, compartilhava dessa paixão –, confere à folia um significado ainda mais profundo e emocionante para ela. A possibilidade de se conectar com outras pessoas que vivem situações semelhantes e de trocar experiências oferece um conforto inestimável, transformando o coletivo em uma verdadeira família estendida.

A psicanalista Cosette Castro, uma das fundadoras e diretoras do Filhas da Mãe, compartilha a origem do projeto, que nasceu de suas próprias vivências. Ela cuidou da mãe, diagnosticada com Alzheimer, por dez anos, como filha única, e percebeu a lacuna de apoio aos cuidadores. “As pessoas falam muito de remédio, de como cuidar. Mas ninguém olha para nós que estávamos cuidando e com sobrecarga”, reflete Cosette, sublinhando a invisibilidade do cuidador. A necessidade de “recuperar a criança que existe dentro de cada pessoa” é um dos pilares do trabalho do coletivo. Em meio à responsabilidade de 24 horas por dia, é comum que os cuidadores sintam culpa ao se permitir momentos de alegria. A folia, nesse contexto, torna-se uma permissão para o riso, para a leveza, e para o resgate de uma parte essencial de si mesmos que muitas vezes é sacrificada. O carnaval, portanto, transcende a simples festa, convertendo-se em um poderoso instrumento terapêutico e de empoderamento.

Impacto e abrangência da rede de apoio

Do suporte virtual à potência terapêutica da música

O coletivo Filhas da Mãe atende, em seu dia a dia, cerca de 550 pessoas por meio de uma robusta rede de apoio. Os serviços são oferecidos de forma voluntária e incluem suporte virtual, expandindo o alcance e a acessibilidade para cuidadores em diversas localidades. A iniciativa não se limita apenas ao suporte emocional; ela também se dedica à promoção da saúde e à garantia de visibilidade para a necessidade do diagnóstico precoce de doenças demenciais, como o Alzheimer, e para a sobrecarga enfrentada pelas cuidadoras, que formam a maioria do público atendido. Cosette Castro aponta para uma série de problemas de saúde comuns entre esse grupo, como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos e transtornos mentais, além de insônia e níveis altíssimos de ansiedade. Essas condições são resultados diretos do estresse prolongado e da falta de tempo para o autocuidado.

Para combater essa realidade, o coletivo utiliza eventos diversificados – de caminhadas a exposições – para informar o público e oferecer momentos de respiro. O carnaval insere-se nesse panorama como uma estratégia eficaz de engajamento e conscientização. Cosette destaca, ainda, o valor terapêutico dos sons e da música, que foram uma das últimas memórias perdidas por sua mãe e por outras pessoas com demência. A música se mostra, assim, uma ferramenta poderosa para a conexão e para o bem-estar. Na casa de Márcia Uchôa, de 69 anos, a mãe Maria, de 96, também diagnosticada com Alzheimer, encontra grande alegria na música e no crochê. Embora Márcia não tenha levado a mãe à folia devido ao receio da gripe e à chuva que caía em Brasília, ela reitera a mensagem central do grupo: “A gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”. Essa frase encapsula a resiliência e a capacidade de encontrar alegria e força internamente, mesmo diante de circunstâncias desafiadoras.

Carnaval como palco de inclusão e resistência

A voz anti-capacitista nas ruas de Brasília

Ao lado do Filhas da Mãe, outro coletivo local, o “Me chame pelo nome”, também desfilava sua alegria e sua mensagem em Brasília, utilizando a folia como plataforma para uma causa igualmente vital: o combate ao capacitismo. Com uma fanfarra vibrante formada por pessoas com deficiência, o grupo promoveu um espetáculo de inclusão e resistência, demonstrando que o carnaval é um espaço para todas as vozes e corpos. Aline Zeymer, servidora pública e uma das coordenadoras do coletivo, explicou que este foi o segundo ano em que o grupo levou sua mensagem às ruas, com o objetivo claro de lutar contra o preconceito e de fomentar o cuidado através da arte. A presença de um bloco anti-capacitista no mesmo cenário em que cuidadores buscavam autocuidado reforça a potência do carnaval brasiliense como um epicentro de manifestações sociais e de promoção de direitos.

A sinergia entre os dois coletivos em um mesmo dia de pré-carnaval em Brasília ilustra a multifacetada capacidade da folia de abraçar diversas causas sociais. Mais do que uma simples festa, o carnaval se transforma em uma arena de visibilidade para questões urgentes, oferecendo não apenas entretenimento, mas também um espaço seguro para a expressão, o empoderamento e a conscientização. A arte, a música e a dança emergem como veículos poderosos para a mudança, a celebração da diversidade e a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

O futuro do autocuidado na folia

A experiência dos coletivos Filhas da Mãe e Me chame pelo nome durante o pré-carnaval em Brasília evidencia um movimento crescente e fundamental: a utilização de espaços de celebração popular para a promoção de causas sociais e do bem-estar individual e coletivo. A folia, com sua capacidade inata de unir pessoas e quebrar barreiras, oferece um ambiente propício para que cuidadores encontrem um respiro e para que a voz anti-capacitista reverbere com força. Este cenário demonstra que a alegria do carnaval pode ser um catalisador poderoso para o autocuidado, a inclusão e a resistência, transformando a festa em uma ferramenta essencial para a saúde mental e a dignidade humana. A tendência é que cada vez mais grupos vejam no carnaval um caminho inovador para abordar questões sociais relevantes, consolidando-o como um espaço de transformação e esperança.

Se você se identifica com a realidade de cuidadores ou busca fortalecer a inclusão, procure por redes de apoio em sua comunidade ou considere participar de iniciativas que utilizem a arte e a cultura para promover o bem-estar e a conscientização.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE