O pontífice Leão XIV, em sua primeira celebração dos ritos natalinos na Basílica de São Pedro, Vaticano, reforçou um veemente pedido de paz, crucial para um cenário global marcado por conflitos. Diante das tensões em regiões como Sudão, Ucrânia e Gaza, a mensagem papal, preparada para o Dia Mundial da Paz em 1º de janeiro, clama por uma paz “desarmada e desarmante”. Esta iniciativa visa fomentar a construção de uma cultura de paz tanto na esfera doméstica quanto na pública, posicionando o diálogo e a confiança como pilares essenciais em um mundo dividido. A defesa de uma postura pacífica, desprovida de armamentos, alinha-se à visão de que a verdadeira segurança não reside na força militar, mas na capacidade de construir pontes e neutralizar hostilidades através da compreensão mútua.
Apelo global por uma paz desarmada
A celebração do Natal e a urgência da mensagem papal
Na noite de sua primeira celebração de Natal, o Papa Leão XIV elevou sua voz da Basílica de São Pedro com um apelo contundente pela paz mundial. A mensagem, já antecipada nos dias que precedem o Natal, e formalizada para o Dia Mundial da Paz em 1º de janeiro, propõe uma abordagem “desarmada e desarmante” para os complexos desafios globais. Em meio a conflitos persistentes no Sudão, na Ucrânia e, de forma particularmente aguda, em Gaza, o pontífice buscou inspirar a construção de uma cultura de paz que transcenda fronteiras e se enraíze na vida cotidiana e nas políticas públicas. A urgência de sua exortação ressoa em um mundo que, cada vez mais, se vê enredado em ciclos de violência e desconfiança. Leão XIV enfatiza que a verdadeira segurança não pode ser alcançada pela acumulação de armas, mas sim pela capacidade de desarmar os corações e as mentes, promovendo o respeito e a compreensão entre os povos.
Crítica à corrida armamentista e o dilema da inteligência artificial
No cerne de sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV defendeu enfaticamente o desarmamento, incentivando cristãos e, crucialmente, autoridades políticas, a se espelharem em Jesus Cristo, cuja luta foi essencialmente “desarmada”. Ele criticou abertamente a corrida armamentista, que tem levado a um crescimento exponencial das despesas militares globais. Essa escalada, segundo o pontífice, é frequentemente alimentada por discursos que “difundem a percepção de que se vive sob ameaça e que a segurança deve ser armada”, criando um ciclo vicioso de medo e militarização.
A condenação papal se estendeu ao uso bélico da inteligência artificial (IA), uma tecnologia que, para ele, “radicalizou a tragédia nos conflitos armados”. Um exemplo pioneiro e alarmante citado foi o uso de drones guiados por IA em Gaza, empregados como ferramentas de intimidação, vigilância e ataques. Leão XIV alertou para o perigoso “processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares”, que emerge do crescente “delegar às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas”. Essa “espiral de destruição sem precedentes”, advertiu o papa, compromete profundamente o humanismo jurídico e filosófico que sustenta e protege qualquer civilização. Em sete meses de pontificado, Leão XIV busca, com esta mensagem, incentivar que as nações colaborem com diálogo e confiança mútua, e que as pessoas cultivem, além da oração, o diálogo com outras tradições e culturas.
Diálogo, confiança e a “casa de paz”
A visão de Leão XIV para a cooperação internacional e interpessoal
Leão XIV, em sua mensagem profunda e abrangente, vai além da mera condenação da guerra e do armamento. Ele propõe um caminho proativo para a paz, enfatizando a importância de as nações se apoiarem mutuamente através do diálogo construtivo e da confiança recíproca. Essa visão se estende à esfera interpessoal, onde o pontífice incentiva os indivíduos a cultivar, além da oração, o diálogo com outras tradições e culturas. Para Leão XIV, a paz não é apenas a ausência de conflito, mas uma presença ativa de harmonia e compreensão.
O papa expressa o desejo de que, em todo o mundo, cada comunidade se torne uma verdadeira “casa de paz”. Nesses espaços, o objetivo seria aprender a neutralizar hostilidades por meio do diálogo, praticar a justiça de forma equitativa e, fundamentalmente, preservar o perdão. Ele reforça que, hoje mais do que nunca, é imperativo demonstrar que a paz não é uma utopia, mas uma realidade alcançável, exigindo para isso uma “criatividade pastoral atenta e generativa”. Essa criatividade implica em buscar novas formas de interação e coexistência que promovam a reconciliação e a colaboração, desafiando a inércia e o ceticismo em relação à possibilidade de um mundo mais pacífico.
O eco ecumênico: líderes religiosos reforçam o chamado à paz
A mensagem do Papa Leão XIV ressoou amplamente entre líderes de outras religiões no Brasil, um país onde a diversidade de crenças é marcante. Marco Davi de Oliveira, teólogo e pastor batista, elogiou a iniciativa papal por provocar uma “profunda reflexão sobre a paz” para iniciar o ano de 2026. Ele destacou a importância de encontrar a paz interior antes de projetá-la no mundo, afirmando que “muitas vezes, atitudes violentas são reflexo de guerras interiores e de falta de Justiça”. Para Oliveira, o papa está correto ao falar da “paz desarmante”, pois isso nos ajuda a compreender que todas as nossas estratégias, fé e compreensão de mundo devem ser direcionadas à produção da paz, primeiramente em nós mesmos, e depois nos outros. Essa construção, avaliou o pastor, é um processo de médio e longo prazo que exige respeito e alteridade, demonstrando que “se há vontade, há jeito, no Brasil e no mundo”.
Kleber Lucas, pastor e cantor gospel, compartilhou uma avaliação semelhante, creditando a Leão XIV a continuidade de um legado de atenção à urgência da paz global. Ele considerou o papa um “agente do Reino de Deus em um mundo que precisa praticar mais a paz”, definindo a prática da paz como “um desafio do nosso tempo, através do diálogo, do respeito, da tolerância, de uma prática cotidiana de conciliação”.
Geraldo Campetti, vice-presidente da Federação Brasileira Espírita, também sublinhou que a paz integra as “bem-aventuranças da felicidade” e que, diante de tantos conflitos, sua busca é mais do que necessária. “A paz é uma conquista que a gente deve empreender todos os dias na nossa vida”, reforçou. “O papa foi certo na sua análise, e o espiritismo vai na mesma sintonia, porque todos nós queremos ser felizes, não é? E não há como ser feliz plenamente se não houver paz”, argumentou Campetti. O primeiro passo, segundo ele, é um olhar interior: “Muitas vezes, criamos muros, por preconceito, por julgamentos, e a gente precisa aprender a ter um olhar mais inclusivo, tal qual Jesus nos ensinou, de entendimento, de busca de uma relação fraternal, entre as pessoas e os povos”.
O babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, corroborou a defesa de um ambiente de harmonia, diálogo e respeito por parte de todas as grandes lideranças religiosas. No entanto, Ivanir fez um alerta crítico, observando que no Brasil, assim como o papa advertiu em sua mensagem, a fé tem sido por vezes desviada para a mobilização de interesses políticos e de discórdia. Ele cobrou que a mensagem papal se materialize em gestos concretos dos cristãos, denunciando que “o papa fala em uma direção, mas tem autoridades cristãs católicas que têm ação diferente”.
Conclusão
A mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz de 2026, expressa em sua primeira celebração natalina, ressoa como um clamor urgente por uma “paz desarmada e desarmante”. Em um mundo assolado por conflitos e pela escalada da corrida armamentista, agravada pelo uso bélico da inteligência artificial, o pontífice propõe uma reflexão profunda sobre os fundamentos da segurança e da coexistência. Ao defender o desarmamento moral e material, e ao incentivar o diálogo, a confiança mútua e a construção de comunidades como “casas de paz”, Leão XIV traça um caminho para neutralizar hostilidades e praticar a justiça. A ampla reverberação e o apoio de líderes de diversas tradições religiosas no Brasil atestam a universalidade desse apelo, embora também se levantem questionamentos sobre a coerência entre a mensagem e as ações de algumas autoridades. A visão papal não apenas condena as tragédias da guerra, mas oferece uma rota proativa para um futuro onde a paz seja uma realidade tangível, fruto da cooperação e do entendimento entre os povos.
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