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Projota compara gerações do rap: do ser ao ter

G1

Em uma análise aprofundada sobre a cena do rap no Brasil, o artista Projota compartilhou suas perspectivas acerca da evolução do gênero, traçando paralelos entre sua própria geração e a atual safra de talentos. As reflexões do rapper abordam desde a disciplina e a estética da cultura hip-hop até a complexa transição temática de suas letras, que migraram do foco no “ser” para o “ter”. Além de discorrer sobre as dinâmicas sociais e culturais que moldaram o movimento, Projota também abriu o jogo sobre os desafios de lidar com a fama, as críticas e a importância da saúde mental em sua trajetória, revelando como a terapia se tornou um pilar fundamental em sua vida pessoal e artística.

A evolução temática e estética no rap

Da disciplina e essência à ostentação

Projota ponderou sobre as raízes da sua geração no cenário do rap brasileiro, descrevendo-a como um grupo “doutrinado sobre disciplina” pelas levas pioneiras do hip-hop no país. Segundo ele, os artistas de sua época eram guiados por princípios de autenticidade e superação, onde a estética visual não era o foco principal. “Minha geração não se importava com estética”, revelou, ilustrando com a prática comum de participar de batalhas de rima “de chinelo”, uma prova de que a essência e a mensagem prevaleciam sobre a aparência.

No entanto, o rapper observa uma mudança significativa na juventude atual. Ele destaca uma “juventude preta, bonita, que consegue se vestir melhor do que nossa geração”, interpretando isso como um sinal de progresso e melhoria nas condições sociais e econômicas. Para Projota, essa mudança estética reflete não apenas uma nova preocupação com a imagem, mas também um avanço nas oportunidades e na autoestima dentro da comunidade. Essa evolução, ele sugere, permite que os artistas se apresentem de uma forma mais sofisticada e com maior liberdade de expressão visual, distanciando-se da austeridade que marcava as gerações anteriores.

Aprofundando-se na temática das letras, Projota identifica uma dicotomia central que distingue as gerações. Ele afirma que “minha geração falava mais sobre ser. E essa, sobre ter”. Essa observação não se trata de uma crítica, mas de uma constatação de uma evolução “complicada, complexa e até natural”. O “ser”, em sua perspectiva, representava a busca por identidade, a superação pessoal, a construção do caráter e a reflexão sobre o propósito de vida, temas recorrentes em suas próprias canções. Já o “ter” reflete uma narrativa que aborda conquistas materiais, bens de consumo e a ostentação como símbolos de sucesso. Projota reconhece que essa transição é um reflexo das mudanças sociais e do mercado, onde o sucesso é frequentemente associado à visibilidade e ao acúmulo de bens, o que se torna um tema legítimo para a expressão artística da nova geração.

Fama, críticas e a jornada pessoal

O impacto do reality show e os desafios da saúde mental

A jornada de Projota rumo ao reconhecimento público teve um ponto de virada inesperado. Apesar de uma carreira consolidada na música, o rapper admitiu que só sentiu que era verdadeiramente conhecido após sua participação em um popular reality show de televisão em 2021. Essa experiência o expôs a um público muito mais amplo, que transcendeu os nichos da música. Ele compartilha com bom humor a situação de ser parado por “senhorinhas” que expressavam sua admiração por sua participação no programa, brincando que nem ele mesmo se “adorava” naquele contexto. Essa anedota ilustra o poder da mídia de massa em moldar a percepção pública e o alcance da fama, muitas vezes de maneiras imprevisíveis para o próprio artista.

Apesar do sucesso, Projota não escondeu as dificuldades em lidar com as críticas, especialmente aquelas que questionavam a legitimidade de sua arte dentro do rap. As redes sociais, em particular, tornaram-se um campo minado de julgamentos e desaprovações. “Eu ‘comprava’ as críticas que apareciam nas redes sociais. Lidar com isso era muito difícil”, confessou o artista, revelando o peso emocional que essas opiniões negativas exerciam sobre ele. Essa vulnerabilidade expõe a pressão constante que artistas enfrentam para se encaixar em determinadas caixas e a batalha interna para manter a integridade artística diante da rejeição.

A ascensão ao sucesso também trouxe consigo desafios inesperados para a saúde mental de Projota. Ele relata que, após vencer na vida profissional, enfrentou um período de depressão. Em suas próprias palavras, “quando a cobrança chegou lá na frente, a depressão chegou. Chegou depois que venci na vida”. Essa revelação subverte a noção de que o sucesso automaticamente resolve todos os problemas, mostrando que as pressões e expectativas podem ser ainda mais intensas. O rapper, que antes escrevia majoritariamente sobre superação, viu suas letras se voltarem para as “cobranças” que agora encarava.

A busca por ajuda profissional foi um divisor de águas. Projota enfatizou que a “terapia foi fundamental pra me entender, me perdoar pelos meus erros”. Ele associou sua dificuldade a uma geração que impunha um “peso tão grande em cima do menino, que não pode chorar, não pode perder, tem que ser foda”. Essa necessidade de ser “muito foda. E em tudo” contribuiu para uma carga emocional imensa. A terapia, portanto, não foi apenas um meio de lidar com a depressão, mas também uma ferramenta para desconstruir esses padrões de masculinidade tóxica e para se permitir a vulnerabilidade, essencial para o processo de cura e autoconhecimento.

Uma reflexão sobre autenticidade e bem-estar

A trajetória de Projota revela as complexidades de ser um artista no cenário musical contemporâneo. Suas análises sobre as gerações do rap apontam para uma evolução natural do gênero, que reflete mudanças sociais e culturais mais amplas, transitando da busca por uma identidade autêntica para a representação de conquistas materiais. A experiência com a fama televisiva, por sua vez, ressalta a natureza multifacetada do reconhecimento, que pode surgir de fontes diversas e inusitadas. Mais profundamente, o rapper oferece um testemunho corajoso sobre a importância da saúde mental, desmistificando a ideia de que o sucesso é uma cura para todos os males e destacando o valor inestimável da terapia e do perdão a si mesmo. Sua jornada é um lembrete de que a verdadeira força reside na capacidade de se autoconhecer e abraçar a vulnerabilidade, independentemente das pressões externas.

Para aprofundar-se nas reflexões de Projota e em sua jornada artística, ouça suas canções e explore seu legado musical nas principais plataformas.

Fonte: https://g1.globo.com

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