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Dupla pode ter sido morta por engano a mando de Adilsinho, aponta investigação

G1

Investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro revelam que dois homens, Fábio de Alamar Leite e Fabrício Alves Martins de Oliveira, podem ter sido vítimas de execuções equivocadas em um curto intervalo de dois dias no ano de 2022. As evidências colhidas pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) apontam que as ordens para esses crimes teriam partido de Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, apontado pelas autoridades como o principal líder da máfia do cigarro no estado e um dos criminosos mais influentes do país. A morte de Fábio de Alamar, em particular, desencadeou a emissão de um novo mandado de prisão contra Adilsinho, solidificando a suspeita de seu envolvimento direto nos assassinatos motivados por disputas no lucrativo mercado ilegal de cigarros.

A complexa teia da máfia do cigarro e os assassinatos

As vítimas e o suposto engano

Fábio de Alamar Leite foi assassinado em 4 de outubro de 2022, ao sair do enterro de seu ex-sócio, Fabrício Alves Martins de Oliveira, no Cemitério de Inhaúma. Fabrício, por sua vez, havia sido morto dois dias antes, em 2 de outubro, em um posto de gasolina na estrada do Mendanha, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. A DHC acredita que a motivação para ambos os crimes residiu no fato de que os empresários, que atuavam no ramo de gelo, teriam emprestado os caminhões de sua empresa para um terceiro homem. Este indivíduo, supostamente, utilizaria os veículos para o transporte de cigarros de forma independente, sem a autorização da organização criminosa liderada por Adilsinho. A quadrilha teria interpretado essa ação como uma incursão indevida no seu território de atuação, acreditando que Fábio e Fabrício estivessem comercializando cigarros ilegalmente por conta própria, o que teria provocado a fúria do grupo e resultado nas mortes. As investigações da Polícia Civil indicam que, embora Fabrício já tivesse trabalhado anteriormente com a máfia dos cigarros, ele estaria afastado do grupo no período dos crimes, o que reforça a tese de um possível engano na mira dos executores.

O mandado de prisão contra Adilsinho

A morte de Fábio de Alamar Leite não apenas chocou a comunidade, mas também intensificou as investigações em torno de Adilsinho. A Justiça expediu um novo mandado de prisão contra ele, sublinhando a seriedade das acusações que o ligam a este e a outros homicídios. Adilson Oliveira Coutinho Filho é sistematicamente apontado pela Polícia Federal e pela Polícia Civil como o chefe incontestável da máfia de cigarros ilegais no Rio de Janeiro. Sua influência e poder no submundo do crime organizado são vastos, e as autoridades o descrevem como um dos maiores criminosos em atuação no país. A disputa pelo controle da venda ilegal de cigarros é tida como o cerne de diversos conflitos violentos e execuções, e o assassinato de Alamar seria mais um capítulo dessa sangrenta guerra. Além de Adilsinho, José Ricardo Gomes Simões e Átila Deive Oliveira da Silva, conhecido como Sassá, também foram indiciados pelo crime, acusados de monitorar Alamar antes da execução fatal.

As provas e o monitoramento da quadrilha

Interceptações revelam modus operandi

O trabalho de investigação da DHC incluiu o monitoramento e a interceptação de mensagens em celulares de integrantes da quadrilha, revelando detalhes cruéis do modus operandi do grupo. Mensagens trocadas por José Ricardo, por exemplo, momentos antes e depois da execução de Fábio de Alamar, fornecem um vislumbre da brutalidade dos atos. Em uma das comunicações, ele descreve a cena do crime: “Acho que não tá vivo não mano, levaram pra hospital, tentar socorrer. Foi muito tiro cara. Tem que ver as cápsulas no chão. Muita, muita, muita”. Mais adiante, outras mensagens interceptadas pela DHC indicam que o verdadeiro alvo da organização criminosa não era Fábio ou Fabrício, mas sim o homem que havia utilizado os caminhões deles para transportar cigarros. Esse indivíduo, ciente do perigo, teria deixado o Brasil logo após as mortes, temendo pela própria vida. Um integrante do grupo criminoso chegou a relatar para o PM Daniel Maia, preso por participação em outro homicídio (o de Cristiano Souza, em 2023): “Ele sabe que eu sei que o Fabinho morreu por causa do caminhão, que ele (o homem) estava usando o caminhão do Fabinho”, confirmando a tese do engano e do motivo atrelado ao uso dos veículos.

O rastro das execuções e outras vítimas

As investigações não se limitam aos casos de Fábio e Fabrício. O confronto balístico realizado pela perícia revelou que as mesmas armas foram utilizadas nas mortes de Fabrício Martins, Fábio Alamar e Cristiano de Souza, ocorrida em 2023, sugerindo um padrão e a ação de um mesmo grupo de extermínio. A brutalidade e a organização da quadrilha são evidenciadas por uma mensagem interceptada no dia da morte de Fabrício: “Os trabalhos não param, senão o zero um fica chateado, tenho que manter ele bem em paz”, reforçando a hierarquia e o temor de desagradar o líder. Enquanto lidavam com as execuções dos empresários, o grupo também monitorava outras potenciais vítimas. Anderson Reis dos Santos, por exemplo, foi sequestrado em novembro de 2022 em Nilópolis, após ser supostamente flagrado vendendo cigarros sem a permissão da organização. O relatório da Polícia Civil sobre a morte de Alamar aponta que Anderson teria sido executado e seu corpo ocultado após o sequestro. Na mesma época, Marco Antônio Figueiredo Martins, conhecido como Marquinho Catiri, também foi alvo de vigilância intensa pela quadrilha por quase um ano, sendo morto em novembro de 2022. José Ricardo, um dos indiciados pela morte de Alamar, foi preso em março de 2023, justamente pela execução de Marquinhos Catiri, que era miliciano e chefe da segurança do bicheiro Bernardo Bello. A prisão de José Ricardo por essa outra morte levou à emissão de um mandado de prisão contra Adilsinho no final do ano passado, mostrando a interconexão dos crimes.

Detalhes da conspiração e os executores

Vigilância pré-morte e tentativas de emboscada

As investigações da DHC detalham o meticuloso trabalho de vigilância que antecedeu a morte de Fábio de Alamar. José Ricardo e Sassá, os dois indiciados, estavam monitorando Alamar desde 10 de setembro de 2022. Naquela data, um contato pertencente a José Ricardo tentou pedir uma entrega de gelo na quadra da Mangueira, o que não se concretizou. Uma semana depois, foi o número de Átila Deive Oliveira da Silva, o Sassá, que solicitou uma entrega de gelo, efetuando o pagamento via Pix. Fábio não realizou a entrega pessoalmente; funcionários foram ao local e, ao chegarem, ligaram para a empresa, percebendo algo estranho. Os caminhões da empresa de gelo, no entanto, foram fotografados e monitorados pela dupla, evidenciando a intenção de rastrear os veículos e seus proprietários. No dia do enterro de Fabrício, José Ricardo chegou a fotografar o carro de Fábio e enviou o material para um contato com um número internacional, indicando a comunicação com outros membros da organização ou com o mandante.

Os elos da organização criminosa

A teia criminosa de Adilsinho revela uma estrutura hierárquica e violenta. Segundo a polícia, José Ricardo prestava contas diretamente a Rafael do Nascimento Dutra, apelidado de “Sem Alma”, identificado como um dos principais matadores de um grupo de extermínio ligado a Adilsinho. A polícia suspeita fortemente que “Sem Alma” possa ter sido um dos executores de Alamar na porta do cemitério de Inhaúma. Fábio de Alamar foi atingido por nove tiros de pistola, por homens que utilizavam balaclavas para ocultar suas identidades e que se deslocavam em veículos possivelmente clonados, uma tática comum em execuções do crime organizado para dificultar a identificação. Diante das graves acusações e dos desdobramentos das investigações, a defesa de Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, negou qualquer envolvimento dele com os fatos noticiados e afirmou confiar que a Justiça comprovará sua inocência, em um cenário jurídico que promete ser complexo e desafiador.

As investigações sobre a atuação da máfia do cigarro e seus múltiplos braços, responsáveis por uma série de homicídios, sequestros e emboscadas, continuam em andamento. A Polícia Civil do Rio de Janeiro segue empenhada em desvendar completamente a teia criminosa, buscando identificar todos os envolvidos, desde os mandantes até os executores, e em consolidar as provas que sustentem as acusações contra Adilsinho e sua organização. O objetivo é desmantelar a estrutura que alimenta o crime organizado e garantir justiça às vítimas e suas famílias.

Para aprofundar-se nos detalhes da operação policial e nos próximos passos das investigações que visam desmantelar a máfia do cigarro no Rio de Janeiro, continue acompanhando as atualizações sobre o caso.

Fonte: https://g1.globo.com

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